sábado, 28 de fevereiro de 2009

Pobre Coração!

Saiba como o amor nasce e vive no cérebro
Os amores, que são muitos, sofrem muitas influências em suas características. E sendo todos de origem semelhante, não ocorrem nunca no tão cantado coração. O amor materno, pelas suas próprias raízes, é o mais arraigado que um ser comum sente e vinculado principalmente à biologia humana, tendo suas raízes na profundidade da fecundação. A seguir é enriquecido pelo tempo de gestação, o qual faz crescer as relações intrínsecas deste sentimento e que culmina a sua formação bruta na maternidade, vindo a aperfeiçoar-se, mais tarde, na intimidade do convívio mãe-filho.
Este amor em seu aspecto estrutural e nas profundezas de sua vibração, é um amor fortemente dependente do comportamento animal e da atividade biológica, que não espera correspondência e que é, sobretudo, incondicional.
Já o amor paterno, por sua vez, também nascido no mesmo ato, é entretanto um amor mais descompromissado, condicionado pela vastidão da condição paterna dos animais machos e que de forma arquetípica caracteriza a sua participação na relação pai-filho, sendo marcadamente influenciado pela correspondência obtida no convívio com este.
De outra forma o amor fraterno, nasce do convívio da ninhada e, aos poucos, vai se desenvolvendo pela capacidade de repartir espaço e atenção.Um amor socializante por excelência, parente da amizade e que tem no desprendimento a sua maior característica.
Mas, é no amor romântico, por ser mais voluntarioso e incidente na vida adulta, onde encontramos o maior volume de curiosidade, de discussão, do qual a literatura especializada tanto se ocupa, abundante em vivências e descrições, envolvente e que por ter de ser um amor criatura de nós mesmos e produto de nossas condições pessoais.É o mais cheio de envolvimentos, emoções, controvérsias, venturas e dissabores.E, também, porque é o amor que garante e sustenta a permanência do ser humano sobre a terra. Gerador de discussões, inclusive quanto ao seu sítio de origem, que no passado viajou por todo o corpo mas que acabou se localizando no coração. Muito provavelmente isso se deva à perceptível palpitação que se sente e ao aperto no peito de que somos tomados nos momentos de pico no envolvimento amoroso, mormente na sua instalação. Um estado físico de aflição que faz parte de um conjunto de reações orgânicas do organismo comandadas pelo eixo cérebro-hipotálamo-hipófise-suprarenal.
As pesquisas médicas e psicológicas há muitos anos vinham demonstrando o deslocamento do seu sítio de origem para o cérebro.E tudo passou a trilhar um caminho diferente, para decepção dos boêmios e dos poetas, que no entanto, tão forte era a antiga fantasia que alimetava a participação do coração na gênese e na sede do amor, que mesmo assim e às expensas da ciência, continuaram a envolvê-lo na função.
Neste particular, como em outros, as pesquisas se mostram tremendamente sérias, abundantes e convincentes.Destronado o coração, passou-se a entender que o amor seria fruto de atividades elétricas e bioquímicas que ocorrem, junto com outros tipos de emoções, exclusivamente no Sistema Límbico.Fato que se confirmou, mas que mais tarde se expandiu para outras áreas do cérebro, como as da captação das diversas formas de sensibilidade e áreas de memórias distribuídas por todo o córtex.
E como tudo se dá neste intrincado sistema anatômico e eletroquímico? Aproximadamente, se dá seguindo uma evolução biológica que culminou com a formação do cérebro no mais superior dos primatas, o homem, o qual é detentor exclusivo desta forma superior de sentimento, o amor. No cérebro, as reações mais primárias e elementares relacionadas a uma emoção ocorrem no tronco cerebral e nos núcleos da base e que ali existem com muita ancestralidade, ou seja, fazem parte do cérebro do homem desde que este era um animal e antes de ele ter a avançada córtex que hoje tem, que lhe dava a sensação e a reação de uma emoção bruta relacionada à sobrevivência. Entretanto, a percepção, ou seja, a consciência dos fatos decorrentes da reação inicial e primária, a qual chamamos sentimento, ocorre nas estruturas mais externas, ou no córtex cerebral adquirido pela evolução da espécie e que formão conhecimento amplo dos fatos. Por isso é que percebemos primeiro; e o corpo reage, através do tronco cerebral e núcleos da base,,como tálamo, hipotálamo e sistema límbico incluídos, antes de sentir.
Ou seja, exemplifiquemos com o medo, que também é uma emoção.Um coelho na floresta ao perceber uma raposa predadora, primeiro paralisa na sua caminhada, depois é acometido de taquicardia e espanto, sente secura na boca, etc, etc.Tudo pelo comando inicial da profundidade do cérebro, para depois então entender que precisa disparar para longe do seu alcance. Assim se conclui, igual que no amor, o medo é uma questão de sobrevivência. Desta forma, tentaremos nos aprofundar melhor nestas duas principais maneiras do cérebro se manifestar neste particular, qual seja através da emoção e do sentimento.
Antes de mais nada, para que se dê a ocorrência do amor em toda a sua plenitude, é necessário perceber que muitas são as circunstâncias que o impedem e outras que facilitam a sua ocorrência. Além da integridade física e funcional, é necessário, em primeiro lugar, que o cérebro apresente determinadas pré-condições que permitam a execução das funções em questão. Assim, o indivíduo envolvido precisa estar orgânica e mentalmente íntegro em sua forma mínima, saudável, atento à sua possibilidade e livre principalmente das chamadas afecções afetivas. Entre estas, a depressão como doença, que também é uma doença bioquímica e que envolve quase os mesmo núcleos cerebrais. A chamada depressão endógena e não a simplesmente reativa, é uma condição das mais mórbidas para uma mente; cheia de sentimentos negativos, que desmotiva, que perturba a percepção do ambiente, a qual é tão importante nas motivações excitatórias do amor.Esta afecção transforma o deprimido num estado que, filosoficamente, faz com que ele veja a vida com as cores escuras da morte, com a qual aliás, esta enfermidade mental muito se parece. Nesta mesma linha, a tristeza, o desencanto e outras gradações da depressão, se transformam num frequente e forte impedimento para a percepção do sentimento que aqui tratamos. Da mesma forma que a insegurança e a diminuição da autoestima modificam a entrada e a valorização dos estímulos que movimentam o amor.
Sem desprezar os outros sentidos, via de regra os motivos do amor entram pela visão, que é o nosso sentido mais desenvolvido e de maior abrangência, deslocando-se cérebro adentro através da via ótica. Inicialmente, as primeiras informações visuais chegam, depois de serem decodificados de onda luminosa em estímulo elétrico no tronco cerebral e ao tálamo ótico para distribuição, donde o estímulo é enviado a núcleos especiais da base do encéfalo. Primeiro ao hipotálamo, onde ocorre uma indentifição grosseira, como se fosse no animal, do objeto avistado e onde é indicado qual a reação orgânica que o organismo vai ter. Neste momento o hipotálamo vai estimular então a hipófise, uma glândula localizada na base do crânio e com íntima relação com as estruturas neurológicas e que controla todas as glândulas do nosso organismo. A qual acionará a suprarrenal para secretar hormônios esteroides e adrenalina. Quando, então, aquele que vai ser envolvido pelo amor(ou o coelhinho pelo medo, na floresta) sente dilatação pupilar, palpitação, secura na boca, palidez, aumento da tensão muscular e relaxamento da musculatura lisa. Note-se, tal reação é genérica para outras emoções e ocorre antes mesmo da consciência dos fatos porque envolve a sobrevivência.
Quase que simultâneo à reação física comandada pelo hipotálamo, o estímulo que havia partido do tálamo chega também ao hipocampo, importante núcleo do sistema límbico, onde é acionada a memória intrínsica destinada a saber se aquilo que foi avistado é bom ou ruim comparado com memórias antigas e outras memórias ancestrais pré-gravadas. Isso, ao mesmo tempo em que a córtex visual, localizada na região occipital, entra na reação para identificar a visão obtida. Ao mesmo tempo que a córtex temporal age para memorizar aquela nova aquisição e o neocórtex frontal cria uma chamada memória de trabalho ou memória do presente ou do passado imediato, da qual se valerá para outras atitudes, agindo assim para ter a consciência plena e tomar providencias quanto ao que fazer com o fato consciente.E à esta consciência da emoção e a sua constância é que chamamos, então, sentimento.E o amor é um deles.
No início desta delicada operação e antes mesmo do primeiro contato de aproximação entre as consciências envolvidas, contato esse que, como veremos adiante, mudará ou manterá os motivos do amor, ocorre no cérebro e de forma salutar um estado de excitação geral proporcionado pelo tronco cerebral, um mecanismo semelhante à excitação que mantém a vigília e que se traduz em interesse.É a pré-condição que mantinha o antigamente chamado flerte e é também o fundamento da atual paquera ou do “ficar”. Neste momento de excitação e atenção, ocorre a inibição de outras funções do cérebro que não interessem ao fato maior, proporcionando ao envolvido, então, a fase da distração ou de estar no mundo da lua.
Em todos os pontos em que se encontre o funcionamento do nosso cérebro ou mente, poderá haver um desvirtuamento das funções e as reações tornarem-se, então, patológicas. Assim, a permanência do indivíduo em estado de excitação sem progredir na relação e que pode ser motivado pelo desencontro das informações mandadas ao cérebro em comparação com as informações de memórias prévias existentes no hipocampo, pode ter um significado doentio, que pode também chegar ao platonismo. Ambos podendo ser provocados por medo na informação de retorno sobre aquela vivência que iniba o prosseguimento.Ou poderá, também, haver um exagero e alongamento da manutenção da excitação, levando a uma dependência da mente, como no desatino da paixão.
Apesar de ser um pouco mais superior que nos animais, mesmo assim a aproximação visual que se seguirá depois com a aproximação através do olfato e do tato, cujos estímulos cumprirão trajetos semelhantes aos anteriores, a começar pelo tálamo na audição e do rinencéfalo na olfação, este tipo de reação dependente dos vários órgãos do sentido pode ser considerada como fazendo parte de uma relação primária, comum aos outros animais. No entanto, mediante sua aprovação no julgamento dado pelo hipocampo e pelo neocórtex e passada esta fase, mudarão os motivos que sustentam e estimulam o amor, o qual passará a ser dependente do conhecimento e das relações interpessoais, indo de primário e animal para o terreno psicológico e social, adquirido da comparação com experiências anteriores do mesmo envolvimento e a com a expectativa futura. Ressalvando-se a exceção feita pelas emoções causadas na repetição do mesmo fato e com o mesmo objeto de amor depois de um longo período de afastamento do estímulo, que é a emoção do reencontro.
Como se vê, a ciência desvendou o grande mistério da gênese e dinâmica do amor; entretanto, acreditamos não chegou a desconsertar totalmente a humanidade romântica e mística, que continua a acreditar que a lua ainda é dos enamorados e que o conhecimento do que aqui dissemos em nada impede o amor ou modifica sua sensação.É certo então que o bater mais forte do pobre coração no amor continuará a ser a sensação mais válida.
O filósofo alemão do final do século passado e do início deste século, Friederich Nietszche, quando estas descobertas ainda engatinhavam, disse, por percepção, que é como conclui o pensamento filosófico, que:"Deus colocou o centro do riso tão perto do centro do choro para que o homem pudesse chorar de alegria". Mal sabia ele que as pesquisas científicas depois dele iriam descobrir os núcleos cerebrias das emoções realmente próximos uns dos outros. E talvez por isso se vá tão rapidamente do amor ao ódio e que frequentemente se expresse a felicidade com as lágrimas.