domingo, 11 de maio de 2008

Sobre a memória

MEMÓRIA (Texto baseado nos ensinamentos do neurocientista Iván Izquierdo)

Memória é a aquisição, a formação, a conservação e a evocação de informações.
Somos, literalmente, aquilo que recordamos.
Não podemos fazer, nem comunicar nada que não esteja na nossa memória, bem como não estão à nossa disposição conhecimentos inacessíveis, nem formam
parte de nós os episódios dos quais nos esquecemos ou pelos quais nunca passamos.
O acervo de nossas memórias faz com que cada um de nós sejamos um indivíduo único, um ser para o qual não existe outro idêntico; tendo a sua coleção de lembranças uma condição única, distintas das demais. Eu sou quem sou, cada um é o que é, porque todos lembramos de coisas que nos são próprias e exclusivas e que não pertencem a mais ninguém.
Nós, humanos, procuramos laços, geralmente culturais ou de afinidades, com base em nossas memórias comuns, formando grupos: comarcas, tribos, povos, cidades, comunidades, países etc. A identidade dos povos, dos países e das civilizações provém de suas memórias comuns, cujo conjunto denomina-se História. O conjunto das lembranças comuns faz com que os brasileiros se sintam brasileiros, o mesmo acontecendo com os demais países e as memórias comuns de seus habitantes.
A memória humana é parecida com a demais dos mamíferos no que concerne a seus mecanismos essenciais e à áreas nervosas envolvidas e seu mecanismo molecular de operação; mas não no que se refere a seu conteúdo.
As memórias são feitas pelos neurônios, armazenadas em redes de neurônios e são evocadas por estas mesmas redes neuronais ou por outras. São moduladas pelas emoções, pelo nível de consciência e atenção e pelos estados de ânimo.

A memória e algumas deformações
Nossa memória pessoal e a coletiva descarta o trivial e, às vezes, incorpora fatos irreais. Vamos perdendo ao longo dos anos aquilo que não nos marcou tanto ou aquilo que não nos interessa mais.

“Memória” e Memórias

As memórias dos humanos e dos animais provêm das experiências. Algumas dessas memórias são adquiridas em segundos, como ao colocar o dedo na tomada, ou o cheiro de uma flor, outras em semanas, como aprender a andar de bicicleta, outras levam anos como aprender uma profissão.
Algumas memórias são muito visuais, outras, só olfativas, outras motoras ou musculares. Algumas memórias consistem em uma súbita associação de outras memórias preexistentes, assim como outras não necessitam de um conhecimento prévio, como a dos dedos na tomada.
Outras consistem em um baralhar de memórias sem a lógica associativa que usamos na vigília: são os sonhos, dos quais nos lembramos, muitas vezes, mais do de que de fatos reais e com eles os misturamos.
Mas a lembrança nunca é igual a realidade: a lembrança da voz de um amigo falecido não nos recupera o amigo.

O cérebro converte a realidade por meio de códigos e os evoca por meio de códigos. Ao converter a realidade em um complexo código de sinais elétricos e bioquímicos, os neurônios traduzem a realidade em sua linguagem. Na evocação, ao reverter essa informação para o meio rodeio, os neurônios reconvertem sinais bioquímicos ou estruturais em sinais elétricos, de maneira que novamente nossos sentidos e nossa consciência possam interpretá-los como pertencendo a um mundo real.
Há algo de prestidigitação nessa arte que o cérebro tem de fazer memórias, de transformar realidades, conservá-las, às vezes, modificá-las e revertê-las ao mundo real. E há também magia em outra nobre arte, a do esquecimento, sem o qual seria impossível pensar. Sem o esquecimento o convívio entre os animais e os humanos, seria impossível.
A imensa maioria de tudo aquilo que aprendemos se extingue.


TIPOS DE MEMÓRIA


MEMÓRIA DE TRABALHO

MEMÓRIA DECLARATIVA
(EPISÓDICAS E SEMÂNTICAS[explícitas])

MEMÓRIA PROCEDURAL
(MEM.DE PROCEDIMENTOS[implícitas])


Memória de trabalho
É muito breve e fugaz, serve para gerenciar a realidade, como: se vale a pena ou não produzir uma nova memória da informação conseguida ou se ela já possui arquivos.

Serve para manter durante alguns segundos, no máximo poucos minutos, a informação que está sendo processada no momento.

A memória de trabalho não produz arquivos.

Usamos a memória de trabalho, por exemplo, quando conservamos na consciência por alguns segundos, um número de telefone que indagamos, pelo tempo suficiente para discá-lo e depois o esquecemos.

A memória de trabalho é processada no córtex pré-frontal , porção anterior do lobo frontal, onde é acompanhada de poucas alterações bioquímicas. Seu breve e fugaz processamento parece depender da atividade elétrica dos neurônios dessa região, não deixando traços neuroquímicos ou comportamentais.
O córtex pré-frontal recebe axônios procedentes de regiões cerebrais vinculadas à regulação dos estados de ânimo, dos níveis de atenção e consciência e das emoções. Isto explica a perturbação da memória de trabalho em condições alteradas por falta de sono, por depressão ou tristeza.
Muitos não consideram a memória de trabalho como um verdadeiro tipo de memória, mas como um gerenciador central, que mantém a informação “viva” pelo tempo suficiente para poder eventualmente entrar na Memória propriamente dita

O papel gerenciador da memória de trabalho decorre do fato de que esta deve determinar se uma informação é nova ou não, se útil para o organismo ou não. Para tanto, a memória de trabalho deve ter acesso rápido às outras memórias preexistentes nos sistema mnemônicos. P.Ex. Diante de um inseto desconhecido que é observado pela primeira vez, o córtex pré-frontal precisa verificar se não há registro de outros insetos parecidos em forma, tamanho ou cor com ele. Se ao faze-lo constata que é semelhante a outro que transmite doenças, o indivíduo poderá eliminá-lo ou fugir dele. Caso contrário, poderá se mostrar indiferente ao inseto.


Memória declarativa:
As memórias que registram fatos, eventos ou conhecimento são chamadas de declarativas, por que nós seres humanos poderemos declarar que elas existem e como as adquirimos. As relativas a eventos são chamadas de episódicas (lembrança de uma formatura)e as relativas a conhecimentos gerais(p.ex. da profissão, conhecimento da língua portuguesa), são chamadas de semânticas. São ditas explícitas por serem adquiridas com a participação da consciência.


Memória procedural ou de procedimentos:
São as memórias de capacidades ou habilidades motoras ou sensoriais, o que habitualmente chamamos de “hábitos”, como andar de bicicleta, nadar, soletrar etc, fatos que não podemos declarar mas simplesmente demonstrar através de um procedimento. São ditas implícitas por serem adquiridas de forma automática.

Nas amnésias ou perdas de memória, costumam falhar primordial ou exclusivamente as memórias declarativas episódicas e explícitas. Na maioria das síndromes amnésicas encontram-se preservadas a maioria das memórias procedurais e boa parte das memórias semânticas adquiridas de forma implícita.


As principais estruturas nervosas responsáveis pelas memórias episódicas e semânticas são duas áreas intercomunicadas do lobo temporal: o hipocampo e o córtex entorrinal, que se comunicam o córtex cingulado e parietal.
As principais regiões moduladoras da formação das memórias declarativas (episódicas e semânticas) são o núcleo da amígdala, também no lobo temporal, e os núcleos reguladores dos estados de ânimo, atenção e emoções.
Os axônios desses núcleos atingem o hipocampo, a amígdala e os córtices entorrinal, cingulado e parietal, liberando os neurotransmissores dopamina, noradrenalina, sertotonina e acetilcolina.

Na hora da formação das memórias a amígdala recebe o impacto de hormônios periféricos(corticóides e adrenalina) liberados no sangue pelo estresse ou pela eventual emoção excessiva. Este é o núcleo pelo qual se modulam as memórias; sua ativação faz com que elas se gravem, em geral, melhor que as outras.


As principais estruturas responsáveis pelas memórias procedurais, ditas implícitas, são o núcleo caudado e o cerebelo. Algumas delas também usam as estruturas anteriores do lobo temporal, nos primeiros das da aquisição. E sofrem pouca modulação por parte das emoções ou estados de ânimo.

Priming ou “dicas”:
Usado principalmente por atores, professores, declamadores, o priming ou dicas é uma palavra, imagem ou som que desencadeia toda uma memória. P. Ex.
A palavra “Ouviram.....” associada a determinados acordes musicais lembra-nos o Hino Nacional.
É um fenômeno essencialmente neocortical, participando o córtex pré-frontais e áreas associativas. Pessoas com lesões nestas áreas necessitam de cada vez mais fragmentos de lembrança para a sua complementação.


Memória de curta duração, de longa duração e remota:
As memórias explícitas podem durar alguns minutos, horas, alguns dias ou meses, ou mesmo décadas. As memórias implícitas geralmente duram toda a vida. Daí dizer que “é como andar de bicicleta...”.

As memórias declarativas de longa duração levam algum tempo para sua consolidação. Nas primeiras horas após sua aquisição são lábeis e suscetíveis à interferências.. A exposição a um ambiente novo( novas informações) dentro da primeira hora após a aquisição, por exemplo, poderá deturpar seriamente ou até cancelar a formação definitiva de uma memória de longa duração. Um traumatismo craniano ou um choque elétrico, logo após a aquisição, anulam a gravação que estava sendo feita, o que explica a amnésia pós traumática dos fatos envolvendo um acidente.

Uma liberação moderada de hormônios do estresse( corticóides, adrenalina) nos minutos seguintes à aquisição podem melhorar a consolidação das memórias; já uma dose excessiva desses hormônios (como durante um quadro de pânico) pode piorar a consolidação.

Memórias de curta duração são aquelas que duram poucas horas, o suficiente para que se efetue a consolidação das memórias de longa duração, ou não.

As memórias de longa duração podem durar meses e até muitos anos e são chamadas de memórias remotas, quando evocadas.

Esquecimento:
Pode-se afirmar com certeza que esquecemos a maioria das informações que um dia forma armazenadas.
Conservamos só uma parte das informações em nossa memória de trabalho e uma fração ainda menor nas nossas memórias de curta e longa duração.
Além do esquecimento, existe ainda a habituação, que é quando os centros da memória não retém mais uma informação repetitiva e a extinção das memórias. Uma memória habituada ou extinta não está propriamente esquecida e sim suprimida no que diz respeito à sua expressão. Um aumento da intensidade do estímulo reverte a habituação; uma nova apresentação do estímulo condicionado reverte a extinção.

Repressão:
São memórias declarativas que decidimos, consciente ou inconscientemente, suprimi-las; é um fenômemo exclusivamente humano.

Misturas de memórias:
Enquanto estamos evocando determinada experiência, conhecimento ou procedimento, ativa-se a memória de trabalho para verificar se essa memória consta ou não de nossos arquivos, evocam-se memórias de conteúdo similar ou não e misturam-se todas elas; formando às vezes, no momento, uma nova memória.
A evocação de diversas misturas de memórias , somada à extinção da maioria delas, pode levar-nos à elaboração de memórias falsas.

Mecanismos de Formação das Memórias
Durante os primeiros minutos ou horas após a aquisição de uma experiência, ela é suscetível de interferência por outras memórias, por um trauma craniano, por drogas ou por alguns tratamentos.

A formação de uma memória de longa duração envolve uma série de processos metabólicos no hipocampo e outras estruturas cerebrais que compreendem diversas fases e requerem de três a oito horas para sua consolidação.

Nas primeiras horas ou minutos seqüentes à aquisição da memória, esta pode sofrer modulação pelo estados de ânimo, pela grau de atenção e alerta e pelo nível de ansiedade.



Basicamente, o substrato anatômico onde ocorre a memória é no circuito interno do hipocampo(CA1-Subículo-Córtex Entorrinal-Gyrus Dentatus-CA3-CA1) que forma o sistema hipocampal, o qual é funcionalmente ativo e capaz de reverberar muitas vezes por segundo, em condições fisiológicas.
Além deste sistema, o córtex entorrinal possui conexões com o córtex pré-frontal(onde se processa a memória de trabalho), com os córtices parietal, occipital, cingulado anterior e o restante do córtex do lobo temporal.


Há consenso entre todos os pesquisadores de que a memória consiste na modificação de determinadas sinapses de distintas vias, que incluem o hipocampo e suas principais conexões. Ou seja, as memórias são guardadas nas sinapses que se fazem entre os neurônios de núcleos, regiões e córtices especializados.

E quantas sinapses são necessárias modificar para que um indivíduo possa guardar uma determinada memória?
Dependerá do tipo de memória. Se for uma memória complexa (toda uma partitura, um compêndio médico), ela envolverá muitos bilhões de sinapses em muitas áreas cerebrais.

O cérebro humano possui ao redor de 200 bilhões de neurônios, um milésimo deles estão no hipocampo. Cada um deles recebe de 1000 a 10.000 sinapses.