sábado, 10 de maio de 2008

A arrogância

Das virtudes da personalidade humana, todas revertem seus benefícios ao portador, algumas mais em relação a sua vida pessoal, privada ou particular, outras beneficiando a sua vida de relação, surtindo efeitos construtivos não só para o indivíduo, objeto dessa virtude, como para os circunstantes com quem de alguma forma se relacione.
Por outro lado, as antivirtudes tem um mecanismo de ação semelhante; algumas prejudicam somente quem as tem, outras também seus circunstantes. Mas poucas prejudicam tanto ao portador, quanto arrogância. A arrogância, contrária da humildade, é a percepção errônea que o indivíduo faz de si mesmo, sempre para cima, para mais e para os lados, tornando-se possuído de um quilate que não possui e que até poderia ter, não fosse essa falha. Mas que, na sua ótica defeituosa, enxerga mal o mundo, do seu prisma defeituoso sai um desdobramento das cores da vida que são regularmente distorcidas, mas que, neuroticamente, estão de acordo com sua visão egocêntrica.
A arrogância é uma espécie de racismo sem raça, cor ou religião, mas sim, um racismo de condições pessoais. O arrogante se sente diferente para melhor quando se compara com seus semelhantes, quando não, sente-se superior às suas próprias fantasias. Defeito freqüentemente aprendido de berço, é refinado no aprendizado familiar, onde recebe respaldo da estrutura arrogante da família ou do ambiente. No entanto, é um comportamento também hereditariamente recebido; pois é comum encontrar-se sobrenomes que passam de pais a filhos, durante muitas gerações e que carregam a mesma falha, como característica principal de seus membros.
Defeitos de personalidade, todos nós temos, mas alguns são vistos como mais graves que outros. Freqüentemente neurotizante, a característica em questão assim o é porque magnifica ou qualifica características que não existem na proporção vivenciada ou pretendida, e a tendência comumente é, quanto mais a realidade se mostra como ela é , mais a arrogância toma vulto, defensivamente. São pessoas que quando alertadas para o defeito, o alerta não deixa de ser um empurrão em direção à realidade. E, sendo a realidade "menor" que o seu mundo fantástico e por isso mesmo de dolorosa constatação, a pessoa alertada prefere permanecer com a sua "verdade" arrogante. E amiúde, transforma em severa inimizade até velhos laços de boa relação, prosseguindo pela sua vida de colorações personalizadas, projetando sempre no ambiente, ou nos circunstantes, toda e qualquer situação que tenha resultado em erro ou fracasso.
O arrogante, de certa forma, é um "paciente" que sofre muito, porque na verdade, no fundo do seu íntimo, a visão que tem de si próprio é de que ele é menor do que os outros. Isso em uma percepção inconsciente, parecendo sempre dotado de atributos que no seu próprio conceito não tem. De um modo regular, em conversas com o travesseiro, são pessoas infelizes e que sofrem demasiado com suas reais limitações. Irascíveis e insatisfeitas quase que de forma permanente, porque são difíceis de serem satisfeitas nas suas descabidas exigências e, também, porque quando o seu julgamento errado sai do nível inconsciente e se aproxima do consciente, a constatação de seus defeitos se torna inevitável e dolorida. E, aí, muito comumente sentem-se acometidas de depressão, derivam para hipocondria, irritabilidade, inadequação e tristeza.
Por serem pessoas que se julgam superiores aos comuns, são de difícil relacionamento, mal conseguem manter poucos amigos, que de longe dizem que lhe suportam e até pena têm. Donde advém freqüente solidão, o que lhes aumenta a depressão. No entanto, quando a característica é familiar, essas pessoas mantém-se melhor nesse aspecto, porque encontram maior proteção emocional.
O comum é envelhecerem de forma amarga, conseqüência direta de terem vivido amargamente, vítimas de uma guerra íntima cujas derrotas enfrentaram no dia a dia e desde sempre; amargura, que às vezes os faz envelhecer também precocemente, trasnformando-os em velhos azedos e mal-humorados e não raro quando morrem, sem ter conseguido meia dúzia que lhes segurem a alça do caixão, deixam escassas saudades.
Ainda que à mercê da pressão do desconforto que esta antivirtude cause à mente e mesmo que a pessoa tenha a luz de procurar auxílio psicoterápico ou analítico, poderão haver modificações que falicite o convívio com outros e consigo próprio. Alguns, entretanto, tem a má sorte de ter que conviver a vida toda dessa forma. Conhecí um paciente cujo padecimento era familiar, várias famílias de parentes com características que bem se enquadravam no que a sociologia chama de burguesia decadente, situação social que passou a ter vulto na geração do enfermo e na qual, por isso mesmo, aí pareceu que a arrogância tornou-se mais notada. Tendo passado uma vida inteira protegido por uma casca dourada e bem tratada, em um certo ponto de pressão interna, de uma luta entre a realidade contra a fantasia e aproveitando um enfraquecimento do Ego, optou por por fim à vida; mas todavia não logrou êxito. Mesmo assim, nada aprendendo, com seqüelas severas e mutilantes, teve uma vida mais miserável ainda, pois só pode andar amparado.
Mas o pior, não perdeu a empáfia, mostrando o quanto é algoz e arraigado esse defeito da mente humana.