domingo, 11 de maio de 2008

Amor e admiração

Amor e Admiração

O amor entre as pessoas, desde que existem as emoções no cérebro humano, e ele é uma delas, é formado por um conjunto, muitas vezes com rótulo de infinito, mas finito, de sensações afins que geram um produto. Tal sentimento emocionado é prenhe de detalhes que enobrecem tanto quem o verte, como quem o recebe; é a tradução do bem na sua forma mais completa e perfeita no coração de qualquer pessoa. Tudo ao seu redor e sob sua bênção se constrói de forma sadia, sólida e duradoura, enquanto dura.
No cérebro, o amor, o romântico, por exemplo, entre duas pessoas, é vizinho de outras emoções, o ódio inclusive, e para o qual às vezes descamba com a mesma intensidade e força, mas ao contrário. Tal amor nasce de uma série de fatores, desde os biológicos iniciais até criteriosos julgamentos éticos, obedecidos por completo ou não, que lhe dão um alvará de instalação em determinado coração, ainda que saibamos que esta não é a sua verdadeira morada. Assim, os estímulos visuais, que quase sempre são os que inicialmente atraem duas pessoas, são submetidos a uma série de critérios de quem vê, instalados como paradigmas em sua mente desde a infância, como o caminhar, o jeito de olhar, o porte físico, a estatura ou o formato do rosto do objeto amoroso em questão. Um conjunto, enfim, que passa por um crivo de memórias visuais remotas. As quais, comparadas a semelhanças agradáveis, dão prosseguimento à avaliação. Segue-se a avaliação olfativa, pois mesmo que a aprovação visual seja dada, o amor sucumbirá se a sensação olfativa do ser envolvido esteja relacionada com memórias desagradáveis. Até aqui, consciente, mas muito mais inconscientemente, tudo funciona de forma muito biológica e biológica será a permissão dada.
O prosseguimento da aproximação dará oportunidade a que os julgamentos evoluam para critérios sociais e éticos, também através da audição, a serem avaliados por outras regiões cerebrais, onde nosso superego se encontra, apto a nos dizer o que é compatível com o prévio aprendizado do certo e do errado, desde que haja formada tal compreensão. Ou mesmo, se comparado com critérios mais atuais, como por exemplo com um defeito de caráter semelhante ao que possuía o protagonista de uma relação recente e mal sucedida.
Resumidamente, assim é como é avaliada uma pessoa a quem vai ser entregue, por uma das partes, um sentimento de amor em forma inicial, aguardando correspondência. E que, em muitas ocasiões, na fase inicial é tão arrebatadora que a chamamos paixão, coisa perigosa, coisa de louco. Mas, uma loucura que todos os corações deveriam experimentar, desde que tivessem seguro contra seus incêndios e danos.
Fadado a ser duradouro, se bem cuidado, o amor ao longo do convívio se retroalimentará de outras situações por ele mesmo condicionadas, já que, por ser o sentimento maior da ligação, a quase tudo nivela por força da bondade intrínsica do próprio amor.
Entretanto, a condição mais necessária à duração em longo curso do amor romântico, entre casais, trata-se da admiração interpessoal. A admiração nascerá do cultivo, em substituição aos valores iniciais menos perenes, desgastados pelo tempo, como a beleza física, por exemplo, por virtudes de maior valor frente a uma fase mais madura da relação. Um casal, por mais venturosa que tenha sido a sua relação desde um início e por muito tempo, não conseguirá a infinitude amorosa se não crescer de dentro para fora, como pessoa humana, individualmente, e de forma livre e bela, de modo a alimentar a satisfação de novos critérios a que o amor será submetido ao longo de sua existência.
Ao longo do tempo, é necessário, pois, que, passada a fase da avaliação inicial, biológica e ética de cada par, mesmo na vigência de um bom e importante ajuste sexual, que novos valores sejam acrescentados a cada um, separadamente, para serem submetidos a uma avaliação mais rigorosa da relação, algo natural da ascendência de nossas mentes em busca do aperfeiçoamento.
Invariavelmente, mais dia, menos dia, em não vendo atendido este imperioso pressuposto, o da necessidade de novos motivos de admiração interpessoal, grandes amores sofrerão desgaste, serão menos felizes, infelizes e até sucumbirão.
É mais ou menos como captava da vida e transformava em prosa cada vez mais atual Vinícius de Moraes: ”É preciso ter muito cuidado com o corpo, mas também com a mente, pois, qualquer baixo seu a amada sente..... e esfria um pouco amor”. E, completo, esfria até bastante.