terça-feira, 22 de abril de 2008

Uma mulher descasada

Um casamento ou relação equivalente, quando dá certo é porque os fatores de que essa relação necessita se fazem presentes no seu início e no transcorrer de sua existência, condições essas que são variáveis de caso a caso, mas nunca fugindo da existência de dois fundamentos, quais sejam o afeto e seus desdobramentos e o respeito com suas variáveis. Este último sendo o elemento mais fundamental de todas as relações interpessoais, em especial daquelas em que o convívio é mais próximo.
Em se falando de relação entre homem e mulher da forma como habitualmente se idealiza e da forma como normalmente começa, se for duradoura, vem precedida de um estado de paixão, que é uma condição carregada de forte emoção e um certo desatino. A paixão, que alguns batizam de louca paixão ou louco amor, e não erram muito quanto a sua insanidade, é mesmo uma condição às vezes gostosamente louca, que leva os acometidos à taquicardia, à hipertensão, ao devaneio, à insensatez, à devastação, à cegueira, ao arrebatamento. E que escraviza, que gera angústia, insônia e pesadelo. De caráter, felizmente, transitório, mas sempre de breve duração, enquanto ainda se possa chamá-la de normal e sadia. Passado um certo tempo, a relação entre o casal passa a ser balizada pelo sentimento de amor, uma derivação sentimental sensata que dá prazer, que é suave, que faz sorrir, que dá enlevo, faz suspirar, sonhar e que é correspondido, um amor vivo e sadio, com ida e volta.
A vida a dois é, obrigatoriamente, uma vida dinâmica, que se movimenta em alguma direção, que está sujeita às mudanças de cada um dos envolvidos. E, assim, ninguém será nunca, ou pelo menos não deve ser, exatamente igual no início, no meio ou no fim de uma relação. E como o ser humano está destinado ao crescimento e à evolução de seus atributos, espera-se que esse movimento seja em direção a uma melhor qualificação pessoal e por conseqüência que o casal herde essas melhoras. E aqui entram também as expectativas dinâmicas de cada parceiro no decorrer dos anos de convívio e o seu não atendimento é um freqüente ponto de desencanto de um lado e outro.
Assim, desde o inicio da vida a dois chega-se em um momento em que cessa o fascínio e tem lugar a sensatez, cessa o encanto e tem lugar a adimiração, cessa a paixão que cega e tem lugar o amor que ilumina. E tudo isso transcorre num tempo de maturação e cozimento, período que a sociedade batizava de noivado, para que sedimente as virtudes individuais quando, ao mesmo tempo, estarão sendo atendidas as expectativas iniciais, que também são muito pessoais. Essas e outras tantas variáveis acabam por amadurecer a idéia de uma vida a dois, teoricamente programada para toda a vida e o período de reconhecimento e afirmação, o mais das vezes terá sido a base onde frutificarão as condições que serão fundamentais à sustentação do que se pretende e por tanto tempo.
E porque frutifica e perdura a relação? Geralmente quando segue os passos anteriores, mas também e principalmente quando se renova, quando tem diversos tipos de chama a aquecê-la, a chama dos filhos, a chama da casa própria, a chama das esperanças mantidas e atendidas por cada uma das partes, a chama do desprendimento que conjuga mais o dar do que o receber, quando principalmente existem buscas em conjunto, mas também e com aplausos, quando existem buscas em separado, sem lugar para culpas e condenações e, muito importante, sem esquecer a chama do amor dos amantes, misterioso e possível, mas expontâneo sem ser oferecido e total sem ser arrasador.
E que se tenha cuidado em se aparar as lágrimas ocasionais, cuidados em não esquecer datas sentimentais, de elogiar as comidinhas, de reforçar as juras de amor, de namorar e, como dizia Vinicius de Moraes, de"ter sempre mais crédito na florista do que na modista" e "de ter muito cuidado com o corpo mas também com mente, pois qualquer baixo seu a amada sente e esfria um pouco o amor". E como foi dito no início, sempre com muito respeito, principalmente à individualidade de cada um.
E, então, porque fracassa a relação? As variáveis são muitas, mas uma delas é porque a sociedade moderna permite alternativas em troca, mas também e principalmente porque a mesma sociedade vem favorecendo a que as partes saltem ou simplesmente ignorem os degraus e as prerrogativas citadas anteriormente, às vezes até por leviandade, ao mesmo tempo que pressões fortíssimas proporcionadas pela pressa do consumo do supérfluo, pela disputa que se trava na cidade grande, pelas condições neurotizantes que atingem um ou outro e que dificultam o convívio. Às vezes, levando ao extremo da raiva ou da culpa e se chega a extremos.
E se pula-se degraus de reconhecimento e sedimentação, é possível que se cometa enganos de escolha e, somadas às dificuldades de convívio, se acaba em separação, que nunca deixa os envolvidos indenes e ilesos, sem perder penas, sem arranhões, sem mágoas, sem culpas e sem acusações e sempre tudo muito doloroso.
E, dependendo como cada um se sinta ao sair do envolvimento, mais ou menos perdedor ou até não, se permaneceram mágoas ou contas a acertar ou mal acertadas; ou afetos que ainda restaram mas, principalmente, dependendo do caráter que cada um carregava, formado antes, muito antes de se conhecerem. Como, qual era a formação prévia da personalidade dada pela família de origem. Com tudo isso, o relacionamento depois do fim ainda pode sofrer suas influências e também por isso ser traumático, com vinganças veladas onde quer que haja uma oportunidade. Inclusive no atraso do pagamento da pensão dos filhos, motivo de angústia de tantas mulheres descasadas.
E em relação a esse ultimo pleito, que constitui o miolo comum de reinvidicação, devo dizer-lhe que ele se encontra sob a regência de dois grandes tribunais; um deles muito pessoal e de foro íntimo, dependente da formação moral e ética de cada um, que a uns é dado chamá-lo de consciência e que outros mais eruditos chamam de superego, que comanda os nossos atos com seus rótulos de certo ou errado. E um outro, que é o do justiça comum, donde escorrem as sentenças ainda que muitas vezes demoradas, mas cujas execuções às vezes lhe escapam e que desnecessária seria se a primeira não fosse dependente do falível e livre(até para errar) homem comum.