O importante é viver! Eis uma constatação que raramente se pára para tomar consciência da sua extensão. Pois, é mesmo essa a nossa primeira e maior realidade, ainda que, com freqüência, o nosso barco navegue sem um rumo consciente e voluntário. E muitas vezes um bom observador de fora analisa melhor nosso trajeto.
As variáveis necessárias ao ato de viver cada existência, em suas poucas facetas importantes ao homem comum, são muitas e de múltiplas qualidades, dependendo de pessoa para pessoa, quase que como em uma imitação das impressões digitais, personalizadas. Ainda que os limites que dão o gosto pelo viver estejam um pouco acima e um pouco abaixo de uma linha aceitável e que assegurem uma faixa que pode se chamar de normal ao ato, de forma corrente e usual. E sempre dentro dos limites do que se aceita em determinada cultura.
Viver, pois, como ser biológico. E viver feliz, como ser racional. Ou como pessoa. São condições que às vezes se tornam dois sinônimos inseparáveis, uma vez que os recursos que a natureza colocou dentro do cérebro, como o comando de ação, a inteligência, percepção e capacidade de conhecer e sentir emoções, coloca-nos também na obrigação de buscar um estado ideal de satisfação prolongada, com seus picos de muito prazer e que se chama felicidade, somente avaliável por cada indivíduo. Que nada mais é que o equilíbrio das forças internas em conflito, com leve predomínio do bem e que sentimos dentro de nós mesmos. Melhor chamar, então, harmonia!
Para que se chegue a esse intento de viver bem, na verdade é necessário apenas uma meia dúzia de coisas básicas e simples, que não ultrapassam certos limites como: a família, as relações afetivas, o trabalho, a saúde, o lazer e por fim, as fontes de prazer (em forma de felicidade)que essas áreas da vida possam proporcionar, através das expectativas a elas relacionadas. Se estas áreas da vida forem vividas de forma competente e equilibrada, você vive bem e é feliz(até com pouca coisa); caso contrário, se for vivida de forma complicada e desequilibrada por você mesmo, você vive mal e é infeliz.
Assim, se o importante é viver, e realmente o é, sem dúvida e de preferência viver bem; o caminho se faz pelo próprio homem através destes caminhos citados. Quase não escapa disso.
A partir de uma certa idade, em que homens e mulheres se sentem habilitados a percorrer esses caminhos com seu próprio norte, é dada então uma largada para a vida, como se fosse uma grande corrida, em que a competição é feita dentro de cada um e cuja vitória será sobre si próprio e suas dificuldades. É uma corrida com obstáculos dimensionados por quem compete e colocados a cada instante do seu desenrolar, cujas ultrapassagens se traduzirão em satisfação e em pontos a serem somados no seu ego e na sua bagagem de experiência. E para o quê, a capacidade e a força tem sempre que ser retirada de dentro de quem compete.
A felicidade, nisso tudo, pode ser interpretada, então, como as etapas e os obstáculos que você mesmo se propôs a ultrapassar, até chegar a um ponto que se chama de vitória. E depois, ainda dependendo de você, recomeçar tudo de novo.
Mas, por serem tão simples as coisas que balizam a vida, porque será que muitas vezes ela se torna tão difícil?
Independente de fatores externos que possam atuar, que chamamos de destino e que, a nosso ver é uma circunstancia que o próprio homem a torna limitada, antes de interpretar como se desenrola a vida de uma pessoa, é preciso e muito necessário que se avalie como essa pessoa idealizou essa sua vida por viver. A ninguém é aconselhável pretender além das condições que na realidade possui ou das condições que a sua, teoricamente, ilimitada vontade, possa criar. Pois destas nasce uma projeção que chamamos expectativa. E a felicidade de cada um de nós, que percorremos na corrida da vida, dependerá da satisfação de nossas bem ajustadas e equilibradas expectativas. Assim como a frustração destas expectativas nos levará à infelicidade, por serem elas mal dimensionadas ou por incompetência. Como se vê, tudo depende de nossa ação e competência, em todas as áreas.
E a criação das expectativas são as mais pessoais possíveis e para tal cito um exemplo: Conheço uma jovem senhora, bonita e cheia de saúde, que me honra por ser seu médico e que, depois de um certo tempo de casada, reconhecendo uma dificuldade no casal para engravidar, adotou uma criança recém nascida. A qual, ao fim de um certo tempo, manifestou-se com grave retardo mental. Passado o desconforto e a conturbação que esse fato ocasionou, o casal resolveu adotar outra criança nas mesmas condições, a qual resultou, também, depois de um certo tempo, com semelhantes problemas mentais. Essa mãe hoje se reparte em duas para atender esta redobrada e teórica ”reversão” de suas expectativas e mesmo assim nunca perdeu o sorriso que lhe embeleza o rosto. Refez tudo o que podia em relação à vida, buscando recursos técnicos para ensinar seus filhos deficientes. E se diz feliz.
Mas sem querer chegar a tanto, é preciso ter cuidado para não deixar escapar o detalhe(às vezes, o pequeno detalhe)da felicidade, que pode passar intocado e despercebido pela nossa frente. Para que depois, penalizados, quando olharmos para trás, percebermos que aquele detalhe não volta nunca mais. E isso é muito comum!
terça-feira, 22 de abril de 2008
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