terça-feira, 22 de abril de 2008

Paixão

Há muito tempo atrás, movido pela curiosidade, tive de volta em minhas mãos, mais de 45 anos depois de uma desprezá-lo pela primeira vez, o livro "Da Intoxicação pelo Amor", onde encontrei uma tese defendida e aprovada com distinção, no ano de 1908, perante uma banca examinadora na, então, Faculdade de Medicina e Farmácia de Porto Alegre, mais precisamente na cadeira de Clínica Psiquiátrica. Mais ou menos aos meus quinze anos, meu pai havia providenciado o meu primeiro contato com o referido livro, uma vez que, quase certamente, eu deveria estar padecendo, então, de algum amor devastador, coisa comum da idade e que não lembro bem os detalhes. E o ato de apresentar-me ao livro deveria servir como uma luz nas trevas que me envolviam. Apenas lembro de não ter dado o devido e esperado valor à obra, recebendo não mais que uma leitura superficial.
Por ser um assunto sempre atual, movido pelo amadurecimento de hoje, pela curiosidade em relação ao tema e coisas afetivas e comportamentais, providenciei junto aos familiares do autor um exemplar da antiga tese para uma análise mais séria e da qual lhes passo alguns dados.
O autor, Dr.Leopoldo Pires Porto, defendeu ali a existência de dois amores. Um que faz sorrir, que é suave, que dá prazer, enlevo, que faz suspirar, sonhar e que é correspondido; um amor vivo, sadio, com expectativa e recompensa. Um outro, um amor escravizante, que faz chorar, que gera angústia, insônia e pesadelo; triste, queixoso, imobilista e que leva ao desatino. Entre um, sentimento sadio, e o outro, doentio, não existem limites exatos; e de um ao outro se vai em gradações, sem uma fronteira rigorosa entre o ponto fisiológico e o ponto patológico. Esse amor a que o autor se refere, é tratado na tese como doentio, sendo que, felizmente(observação da época), dado ao grande número de apaixonados, mesmo assim a maioria evolui com grau médio de morbidez, com sintomas cíclicos que tendem à cura.
Assim como um organismo com baixa imunidade contrai uma infecção ou uma virose com facilidade, assim como uma pessoa deprimida adoece com mais facilidade, assim como encontramos pessoas que nunca se gripam e outras que o fazem com freqüência. Assim como quem conhece um determinado risco e se protege dele tem menos chance de contrair uma patologia orgânica que lhe esteja relacionada, também assim a doença da paixão só se instala em um indivíduo pré-condicionado.
Sendo o amor e suas distorções, um componente do psiquismo, também as pré-condições para o acometimento de uma paixão doentia são condições pertinentes à personalidade do afetado. Diz-se dessas pessoas que normalmente são previamente humilhadas, carentes, deprimidas, impotentes e com outras características do gênero, isoladas ou em conjunto. Filhos de pais autoritários e com pouco diálogo, também por isso submetidos a um crônico processo de humilhação, com freqüência padecem de ansiedade e almejam a qualquer preço, em conseqüência, um relacionamento ideal, ideado sempre como uma situação de mais conforto emocional. As pessoas com personalidade dependente, às vezes, são filhos dos mesmos pais que humilham, sentem-se irrealizadas, diferentes, diminuídas; e idealizam também uma relação que conceda um escape ao seu desconforto afetivo, à qual, quando pensam que encontram, se agarram com ventosas difíceis de se soltarem, pois acham que aí, nesta paixão, encontram proteção e estabilidade. O que, no entanto, é quase sempre um achado empírico e irreal e porque não dizer, platônico.
Essas são algumas das condições e sintomas que pré-condicionam o indivíduo para a paixão como doença e que facilmente o tornam um cativo da servidão.
A paixão comum, aceitável, acende o místico do amor e queima breve, permitindo à seguir que a manutenção da chama seja mantida sem turbulência, sem aflição, em um amor calmo, sereno e duradouro.
A relação de amor pressupõe ou permite um certo grau de embriaguez de paixão inicial, como a vencer a inércia. Um arrebatamento fisiológico flutuante, taquicárdico, insensato, gerador de devaneios, insone, porém transitório e benigno. Ao contrário da paixão, cronificada, doentia, platônica e malígna.
O amor saudável não conduz e nem aceita o desrespeito, não produz humilhação, não tem egoísmo, nem servidão, aflição, domínio ou dependência; tampouco leva ao engano, exploração, submissão ou uso; assim como não aceita a despersonalização, o desprezo e o abuso.
No ser humano, o amor é uma relação de afeto e, por conseqüência, o amor é um sentimento positivo, criador, construtor e edificante, jamais poderá trazer em seu bojo sensações como amargura, lamentação, destruição, agressão, ira ou morte, comuns ao seu contrário. Um é um sentimento de vida e o outro, o ódio, é um sentimento mórbido.
A manutenção do sentimento de amor ou de qualquer outra relação de afeto positivo depende da sua sustentação e da sua continuidade e para isso está também ligada à condição de caráter e da conduta geral dos envolvidos, que inclui entre outros, o respeito e o zelo. É o respeito que mantém a individualidade na relação, que impede o sufoco e a servidão, que permite o crescimento e permite que os envolvidos se tornem grandes às expensas da expansão de cada um.
A liberdade de um modo geral, e no amor em particular, é uma condição especial para um relacionamento sadio. Ela é a área onde cada um é soberano, área privada, mas que deixa de existir quando atinge ou começa a área ou a liberdade do outro.
Existindo,de ambas as partes, uma noção exata e uma consciência plena da existência dessas delimitações, não ocorrerão invasões ou violentações. E quem regula tudo isso é o respeito, do qual o zelo é próximo.
Assim como a felicidade individual não é constante e sim episódica, feita de pequenos tufos que nos são oferecidos ou conquistados, desde que cumpramos as devidas condições favorecedoras, da mesma forma a felicidade na relação é feita de episódios. Assim, os intervalos da felicidade no amor são, como na vida em geral, cíclicos, com conforto e desconforto em alternância.
Também fazem parte da manutenção do amor os cuidados próprios de cada um consigo mesmo. Se o indivíduo é capaz de se querer bem, de manter seu ego e o seu amor próprio, um amor próprio que passe muito distante da arrogância e da errônea superdimensão, grandes inimigas do amor, manter-se com lustro, bem cuidado, querer bem a si próprio na aparência, na conduta, no caráter, nas aspirações, enfim, num grande número de atitudes que adicionem, terá então condições de ser admirado por seu par e de encontrar as mesmas condições nele e admirá-lo. Se apagou-se o místico da paixão, se manteve-se acesa a chama do amor, a sua continuidade, a sua permanência e a sua longevidade dependerão desses cuidados.