terça-feira, 22 de abril de 2008

O Sentido da disputa

Tudo sugere que a disputa nasceu do comportamento primitivo do homem, enquanto este ainda era um animal. Disputava, então, as coisas mais próximas, necessárias e vitais, como a fêmea, o macho, o território e a comida. E a disputa, de simples que era, foi se magnificando, à medida que o homem foi evoluindo e se transformou em batalhas e em guerras. Mas sempre disputando as mesmas coisas importantes, suas equivalências ou o seu simbolismo. Passando, depois, a disputar territórios, onde o vencedor costumava imperar e dominar as terras conquistadas, ficando também com as mulheres que nelas habitavam, uma premiação natural. E das terras tiravam a comida para sí, para seus guerreiros e dependentes.
A guerra em sí, então, passou a ser a forma mais brutal e grotesca de se disputar a posse de algo entendido como necessário, algo que se julgasse no direito por questões vitais ou por questões pressupostamente"legais".
Não satisfeito com as guerras e pela necessidade íntima de seu exercício, o homem passou a inventar os jogos de guerra, a serem disputados no intervalo destas e no descanso dos guerreiros, para distraí-los. E então lutavam homem com homem, nas mais variadas formas de contenda, inclusive e em casos mais extremados, com direito sobre a vida do vencido, numa sensação de êxtase que era repartida com a assistência.
Só que, com o passar dos milênios, o ser humano foi tendo o seu comportamento desembrutecido, tornando-se mais civilizado e, através de seu psiquismo intelectualizado, criou alternativas para a sua agressividade inata. E as formas de disputa foram ficando cada vez mais próximas de uma"guerra sem sangue". Como por exemplo, nas disputas dos cavaleiros reais, em contendas medievais, feitas a cavalo, com armaduras, com espadas, com lanças, com massas, mas por esporte, vencendo ao contendor sem abatê-lo. E daquele espírito embrionário de disputa dos homens das cavernas, hoje verdadeiramente apenas intrínsico ao ser humano, herdado de forma ancestral e imutável, passando pelos jogos de guerra, nasceram todos as formas de jogos contemporâneos com disputa. O futebol americano, por exemplo, é um deles, em que os contendores treinam como se fossem para uma guerra, arremessando seus troncos e ombros contra um poste fincado ao chão, para criarem boa forma física e, depois, conseguirem resistir ao seu opositor, como se fossem um soldado numa guerra corporal. É um jogo com formas e representação de uma batalha, inclusive praticado com armadura.
O jogo de xadrez é um outro que apresenta resquícios de um passado bélico, com rei e rainha, com os bispos(que ancestralmente sempre apareceram perto do poder), torres, cavalos e com soldados rasos, os peões, jogado com estratégia. O jogo de damas, um outro exemplo, é um pouco mais social e adamado, no entanto o linguajar usado, simbólicamente, lembra uma disputa real fora do tabuleiro. Senão, pergunto, a cada lance de avanço não se"come" uma pedra, inclusive podendo-se "comer" a dama?E o jogo avança em uma mistura de palavras que tem o significado de confundir o seu prosseguir vitorioso com a posse do alimento (comer a pedra) e com a posse das mulheres (comer ou possuir a dama)do território atingido, não é mesmo?
Observem, com o nosso futebol não é diferente! "Campo de luta", é como alguns chamam o gramado onde se desenrola o"embate". É nele, onde o goleiro é o "guarda valas", igual ao vigia atento nas trincheiras dos campos de batalha. Não lhes parece semelhnate?E ainda, nesta comparação, o esquema dos jogadores em campo é constituido de"ataque e defesa", os que jogam na frente são "pontas de lança" ou atacantes (como numa luta), ou do original em inglês, os "for war", que quer dizer, litaralmente,"para a guerra". Não parece uma luta?
E o gol, o quê que é? É a estocada final, que em meio ao êxtase "mata" o adversário e que às vezes se diz"com um canhonaço", não é verdade?E para completar esta semelhança relativa, o técnico da equipe é o estrategista e o seu melhor soldado é aquele que resolve a disputa.