terça-feira, 22 de abril de 2008

O Kama Sutra

Lamentavelmente, a prática do sexo tem sido vista desde antanho, na nossa civilização ocidental e em outras que o encaram de variadas formas, até aberrantes, como uma prática proibida, vergonhosa ou sem decôro, fruto muito provavelmente das dificuldades encontradas pelas mesmas sociedades em tratá-lo com normalidade. Chegando-se, por exemplo, em nome das distorções de enfrentamento do referido ato, à verdadeiras aberrações, ou mesmo selvageria, como as que são cometidas na religião muçulmana, onde se pratica a ablação sumária do clítoris das meninas para que as mesmas não experimentem o prazer sexual quando se tornarem mulheres, o que já foi citado alhures. E, tirando os pecados contra a vida cometidos pela humanidade, foi ao redor do sexo que sempre gravitaram os grandes delitos ditos morais, tudo por pura distorção ao se encarar uma atividade que é fisiológica no corpo, que a uns perturba, a outros revolta, a muitos vexa, a outros tanto frustra, por outros é visto como coisa proibida ou como pecado e que aos poucos vem sendo dado vê-lo com naturalidade. Tudo produto de nossas cabeças e daquelas que nos criaram e assim de lá para trás, indefinidamente.
O prazer sexual é a manifestação maior e mais eloqüente do corpo humano; corpo esse que pode ser considerado uma obra prima da concepção e ordenação de Deus, cuja distribuição da sensibilidade em todas as suas formas, bem como os outros órgãos do sentidos que desse prazer participam e que foram colocados em nosso corpo também por Ele, nosso criador. E é uma sensação tão prazenteira que mobiliza toda a economia orgânica, desde o sexo em sí, passando por uma maravilhosa onda vibrante e universal de todo o corpo, que começa com a dilatação das pupilas, passando pela lividez ou rubor da pele, com embotamento e especificidade da atenção, inclusive tomando parte disso a modulação das funções cerebrais e que só se compara em importância à outras sensações semelhantes da mesma área.
A energia da libido, que é força que comanda a atividade de busca e satisfação do sexo, é a mais potente força do ser humano, inclusive pelo seu valor procriativo, mais primitivo, e que garante em última análise a continuação do homem sobre a terra, uma força que se transformada ou sublimada é também uma potente força criativa. Podendo-se arriscar a dizer que toda a criação depende de circunstancias em que há uma canalização da libido original.
Um exemplo dessa força e do que se faz para satisfazê-la está na Bíblia, numa passagem relacionada a Ló, irmão de Abraão, primeiro patriarca escolhido por Deus para liderar o seu povo. Avisados por um anjo do Senhor da iminente destruição da cidade, ao fugir de Sodoma, Ló e suas filhas, depois que sua mulher foi fulminada por olhar para trás, acabaram por encontrar um lugar seguro para descansar. As filhas, então, depois de um certo tempo, temendo que não houvessem mais homens com quem se acasalarem, devido a destruição da cidade, onde todos eles pereceram, combinaram-se e mantiveram, alternadamente e em noites diferentes, relações sexuais com o próprio pai, seduzindo-o depois de embebedá-lo com vinho.
Esse caso de incesto, que é uma das distorções da atividade sexual, é apenas um exemplo de como é conduzida a sexualidade, bem como a facilidade de seu descontrole. O sexo com violência, cuja instancia máxima é o estupro seguido de morte, é outra distorção de sua prática e que nasce em mentes onde a libido fica fora de controle e onde os valores encontram-se pervertidos. E por aí vai. Ainda, em matéria de perversão da atividade sexual, conta-se que o grande escritor ingles, Oscar Wilde, que era homossexual e padeceu porisso da perseguição da moral rígida da Era Vitoriana, só sentia ereção máscula e orgasmo se uma mulher defecasse em seu rosto, encoberto por um papel celofane, pode?
E o adultério? O que é o adultério? Muitas vezes é uma forma ou uma conseqüência de como o sexo no casamento é insatisfatório por ser mal exercido por um ou por ambos os envolvidos, obrigando-os a buscarem, fora da relação, o prazer, exatamente o prazer que lhes é negado ou escamoteado na relação regular, ainda que não seja essa a sua única justificativa.
Mas em termos práticos, um homem que tratasse sexualmente a sua esposa como trata, ou trataria, uma eventual amante, principalmente nos dias de hoje em que as informações sobre erotismo (diferente de pornografia) e seu poder de satisfação são tão abundantes, com toda a atenção dada aos requintes do prazer, jamais correria o risco de que ela fantasiasse ou mesmo chegasse as vias de ter uma aventura extraconjugal ou muitas delas. E o contrário também é verdadeiro.
Há pouco tempo li um livro, que há mais de 35 anos me havia passado pelas mãos e que naquela época o julguei injustamente pornagráfico por negligencia na sua avaliação; livro esse que se chama O Kama Sutra. O referido livro, mundialmente famoso, foi escrito por um indiano em data avaliada entre os anos 200 e 300 da era cristã, retratando uma experiencia que já era milenar em seu povo a respeito da sexualidade. Lá, na cultura daquele tempo, o sexo era considerado uma arte e como tal deveria ser praticado. E sendo arte, necessitava de aprendizado e de esforço para praticá-lo bem. É claro que, entendendo-se por bem, o quanto mais prazer seus praticantes obtivessem, tanto melhor. Assim, o livro ensina a quem quiser segui-lo em suas práticas, desde os conhecimentos que uma mulher, a quem ele mais se dirige, mas também o homem, deve ter das várias artes que circundam o sexo, como bordar lençóis ou produzir licores, executar massagens relaxantes ou saber misturar essencias aromáticas, saber portar-se na aproximação sexual, os prazers do banho juntos, o uso da boca, a arte dos beijos em suas várias formas, os cuidados com o hálito, o cultivos das flores e das ervas, os abraços, a arte contar estórias, enfim, são listadas mais de sessenta atitudes virtuosas em que os participantes do ato sexual tem que estarem aptos a desempenhar, previamente, ao ato sexual em si.
Além disso o livro lista um sem número de regras, que incluem posições para a consumação do ato sexual que aumentam o prazer deste. Prazer esse, que naquela cultura era visto como um direito inalienável dos cidadãos e das cidadãs. Recomendo!