terça-feira, 22 de abril de 2008

Irracionalidade bélica

O homem possui um subconsciente cuja ameaça essencial é a da perda da vida; o que faz com que a sua conservação seja o seu maior objetivo, de forma instintiva. Seria assim, se só envolvêssemos atos da nossa irracionalidade e mataríamos a vida nos outros apenas pela sobrevivência. E é o que ocorre no homem equilibrado comum; a sua relação normal com a morte é tão somente evitá-la, tanto mais quanto mais evoluído ele fôr.
Mas, as pessoas deste recente século são oriundas do traumático por conflituoso século passado; um período belicoso da história do mundo, mortífero e sangrento, que a própria história já contou. Assim, é certo que a raça humana, representada por aqueles que ordenam os fatos maiores, nada aprendeu da bélica lição, a ponto de evitar as guerras. Mormente, quando um conflito como os que se desenham, iminentes ou encubados, no Oriente Médio e mundo a fora, diferentes dos ocorridos no passado, atingirão a todo o mundo pela globalização inevitável, assistidos em tempo real, em deliberação nascida em decisões restritas, quase sem apoios formais. Ou seja, nós os civis, que somos os mais freqüentemente prejudicados, quando não, mortos pela desproteção, seremos todos envolvidos de alguma forma em uma sempre possível guerra que não queremos.
O ser humano e sua mística, premido por suas inseguranças, por vezes por sua ignorância e pela necessidade de respostas a mistérios insondáveis, inventou os deuses e a religião correspondente como uma codificação regente, altamente maléfica quando considerada como verdade absoluta e defendida com emocionalidade. Pressionado pela necessidade de sobrevivência, inventou também a propriedade, sobretudo da terra, e com ela a pátria.
Pela mesma razão e necessidade foi igual com seus vizinhos, mas com ética nem sempre aceitável, um objeto de freqüentes e sangrentas disputas, em tempos que se presumia passados. E inventou políticas para reger as relações entre as sociedades, entre iguais e entre povos, orquestradas por homens e, logo, com graves defeitos. Pois, é exatamente no desregulamento destas premissas: religião, propriedade e política, com desrespeito ao convívio humano, onde se encontram as mais freqüentes razões de por quê os homens se matam. Mas, ainda, é a misteriosa e inebriante vocação pelo poder e suas circunstâncias, onipresente na arte de que se valem os grandes para conduzir seus iguais, onde se acende o estopim que conduz os povos da terra à morte trágica e inútil( Bin Laden vivo é uma prova cabal desta inutilidade). Aliás, quase todo o mapa global foi desenhado assim, através das guerras!
Quando o lógico seria que os homens, após delimitarem suas pátrias em acordos, depois de adquirirem novos valores e de um elevado grau de civilidade, rumo ao aperfeiçoamento, após atingirem um maior grau de conhecimento e elevação espiritual, como é o pretenso caso da civilização ocidental, mas principalmente, depois do exemplo da Liga das Nações, que acabou com a Primeira Guerra Mundial e a criação da pouco poderosa ONU, pressuposta regente do comportamento entre as nações, depois da Segunda Guerra Mundial, usassem essa e instâncias semelhantes como um foro sensato e deliberativo.
Ao contrário disso, na questão do Iraque, estamos diante de um fato grotesco gerado exatamente pela certeza da supramacia, pela posição de liderança, pela inteligência, pela racionalidade humana mal versada agindo sobre as emoções, em ato pensado, calculado e elaborado, movido pela força da brutalidade basal, imutável e com saldo discutivel. E todos perdemos e continuaremos a perder, enquanto o Cézar moderno não cruzar de volta o Rubicão.