terça-feira, 22 de abril de 2008

A dinâmica dos costumes

Há séculos, desde que o mundo é mundo, as civilizações, mesmo as mais conservadoras, vêm assistindo as gerações mais novas adotarem comportamentos de vanguarda, modificando antigas normas e posturas, mesmo frente ao espanto e inúteis reações em contrário produzidas nos mais velhos, isso em todas as áreas culturais dos povos.
Em nossa cultura, em particular, e acompanhando as modificações experimentadas pelo ocidente, sempre de forma centrífuga em relação aos grandes centros e, inevitavelmente, acompanhando a velocidade que os meios de comunicção imprimem à vida, não existe àrea em que os mais velhos não se escandalizem com as mudanças, algumas que julgam impróprias, afoitas, outras perigosas e outras até mesmo escandalosas. Ao mesmo tempo que os mais jovens, os quais, desde um princípio, possuem alicerce social semelhante aos mais velhos, mas parâmetros distintos em relação a eles, são impelidos a se engajar-se na onda das modificações, quase sempre emocionantes e, às vezes, excitantes. Todas elas, mudanças que, como em todas as facetas de tudo onde envolve-se o homem, com suas vantagens ou desvantagens.
A começar, falemos de mudanças que atingem, afetam ou mesmo favorecem a base da sociedade de um modo geral, que é a família. O ocidente ainda assite a transformações muito grandes nesta área emblemática, a familiar, fonte da boa formação afetiva e social humana, ainda que, de forma mais rara e para o mesmo homem, muitas vezes seja também uma fonte de grandes conflitos e muitos desajustes de conduta, independente do modelo antigo ou moderno adotado.
O homem é um ser que interage com ambiente, de forma constante e definitiva; daí a dependência a que está envolvida a família a qual pertence, desde as influências a que esta está sujeita com novas leis que a regem, como a implantação do divórcio, da possibilidade de acorrerem famílias sem vínculo oficial e da carência na relação, em termos de aproximação interpessoal, feita por distanciamento impositivo para fora do núcleo, como trabalhar em outra cidade ou a necessidade de longos períodos fora de casa. Por outro lado, dada a modernidade e a aproximação que ela favorece, hoje em dia uma pessoa tem poucas chances de ficar só, o que, inclusive, facilita uma eventual resolução de trocar parceria. Mesmo dentro da própria família, é comum vermos modificações na estrutura, mesmo sem que esta se decomponha, como pai ausente por vários motivos, inclusive motivos de trabalho noturno ou distante, ou do trabalho de mães que se tornam verdadeiros arrimos, sustentando filhos e trabalhando fora em número cada vez maior. E por fim, temos os filhos de produção independente e os modernos filhos dos mais variados tipos de inseminação.
Com todas essas alternativas e novos arranjos sociais conseqüentes, seria impossível conceber-se que não surgissem novos modelos de comportamento humano. São muitas as variantes que balizam, de forma bem diferente do passado, as relações humanas e familiares e isso produz novas pessoas. Não resta dúvida, essas novas modificações ajudam a criar novos filhos, alguns que amadurecem mais cedo para enfrentar a vida, acostumados que foram, desde muito cedo, a ter responsabilidades cada vez mais precoces para suas idades, desde as mais simples às mais pesadas. Entretanto, com risco de que tal seja em detrimento de sua maturação afetiva, aquela que nasce do convívio efetivo com pai e mãe juntos.
Se a educação liberal, que sai de uma família assim montada, tem propiciado serem os filhos mais descontraídos, menos oprimidos e mais livres, da mesma forma tem havido uma imprópria distensão no tocante ao respeito que se faz necessário aos superiores, incluindo os imediatos professores, com a importância dada ao estudo, bem como à formação visando o futuro, como produto da repercussão imediata da formação familiar liberal nas relações escolares ( quando esta não tem a mesma conduta distendida da família). E, em alguns casos, com graves conseqüências na responsabilidade do aluno para consigo mesmo, seus superiores, seus colegas e, principalmente, para com o seu futuro. E, é comum, então, encontrar-se alunos intelectualmente desmotivados, com escassa perspectiva de futuro e até sem responsabilidade em relação a ele. São jovens que, por terem crescido com poucas frustrações, com desejos satisfeitos em casa ou transferidos a objetivos fúteis, pelos próprios pais , desenvolvem uma falsa verdade de que tudo é fácil e que a vida, igual ao pai e a mãe, tudo proverá, naturalmente.
Em outra esfera, se formos nos basear e analisar com os olhos de Freud, quando diz que tudo começa e tudo termina em sexo, por esse prisma, o nosso dia a dia parece ser realmente assim. Mas, sem exagerar tanto e sem tomar-se ao pé desta letra, a liberação sexual levada a efeito no ocidente, veio, mesmo, atingir a todos os comportamentos. Auxiliadas pelo advento da pílula anticoncepcional, pelos meios de comunicação e pelo comportamento liberal, as mulheres, e também os homens, passaram a ver na atividade sexual uma circunstância, em muitos círculos sociais, quase sem tabus, praticamente livre ou com discretas restrições, vastamente, mais distensionado que no passado.
E se tal foi bom em relação à antiga repressão, com a liberação de um prazer natural e intrínsico, por outro lado surgiram as conseqüências do descontrole, como as doenças sexualmente transmissíveis, conhecidas desde sempre, mas muito mais difundidas hoje em dia, apesar dos recursos médicos sempre atualizados. Considerando-se, nesta área, separadamente, a AIDS, pelo seu elevado grau de transmissibilidade e pela, ainda, ausência de cura, ocorrência conseqüente, parelha e simultânea à liberação, sem os devidos cuidados, dos costumes sexuais.
Restando ainda salientar-se, ainda que sem esgotar o tema, que, também conseqüente a esse novo tempo e nesta área, a liberação dos costumes sexuais e familiares levou a um aumento considerável da ocorrência de gravidez na adolescência, sendo que, neste aspecto, há que levar-se em consideração, não mais a antiga desinformação como fator de pressão, mas, sim e também, a facilitação da aproximação entre os jovens, a própria natureza das adolescentes que tem sua menarca cada vez mais cedo, desenvolvendo, antes que as adolescentes do passado, caracteres sexuais, ditos secundários, mas evidentes, todos modificadores do corpo e da mente, capacitando-as à concepção. Tudo com muito peso, acrescido de um grande volume de informações que lhes modificam a cultura.
Por outro lado, muitos rapazes, que até, nesse ponto, amadurecem mais tarde que as moças, por entrarem cada vez mais cedo na escola, alfabetizam-se precocemente, terminam o segundo grau, às vezes, dois anos antes que em recente tempo passado, estando aptos a ingressar na faculdade ou no mercado de trabalho até com dezesseis anos, época em que já são cidadãos votantes.
E por aí se vão outros favorecimentos para a referida maturidade. Donde conclui-se que, nesta área, talvez, esteja faltando a concomitância de outras maturações acessórias, inclusive no tocante ao grau de responsabilidade pelos fatos decorrentes.