terça-feira, 22 de abril de 2008

A Crise dos 40 anos

Egresso da idade em que o aprendizado é mais magistral e exemplar, oriundo de pai, mãe, superiores e professores, o homem ingressa em uma idade em que seu amadurecimento ocorrerá pelas vivências experimentadas; é a idade adulta.
Teoricamente, a personalidade primária, ou seja, o molde moral básico e a fôrma da conduta do indivíduo está formado entre os 6 e 8 anos de idade. A partir daí, será moldado pelas reações a um ambiente mais além do familiar, onde se intensificam as disputas. Chegando à adolescência, onde forma conceitos mais profundos, entre eles os caminhos a seguir através de idealizações múltiplas e muitas vezes sem definir exatamente como o fará.
Seguindo um cronograma pré-estabelecido pela sua cultura, o indivíduo procura ao natural a formação da família, a exemplo daquela que o gerou como ser biológico e social, alternando-a ou concomitante à conclusão de seus estudos, com os quais enfrentará a disputa pela vida de sobrevivência. É um tempo em que via de regra, o advento dos filhos, o trabalho e as exigências de consumo passam a nortear seus caminhos, quase sem interferência voluntária. E então, por imaturo e sem uma condição natural de se auto-analisar, o indivíduo entrega-se de forma cativa às conquistas inebriantes nos terrenos mais comuns do seu entorno, brigando por promoção no trabalho, por afirmação sentimental e máscula, para dar aos filhos os bens materiais que não teve, até por que muitos não existiam; tudo através de luta intensa, íntima e com o ambiente. Por um período que leva, às vezes, quase 20 anos.
Os 40 anos são uma idade em que coisas como saúde, que na visão prévia era tida como de ocorrência gratuita, começa a ser aceita como uma entidade a ser promovida. É o tempo em que o camarada entra nas academias ou atos semelhantes, para manter a saúde do corpo e a aparência física, já que por outro lado, também as suas fantasias requerem um melhor condicionamento. E até por que, por uma questão de natureza do psiquismo, a idéia de finitude, ainda que tênue, move a idéia de revisão, inclusive de suas realizações até ali, comparadas com o que foi idealizado na juventude.
A vida consciente e sua bagagem de vida, no indivíduo com uma mente medianamente normal, é feita de expectativas em relação si próprio e aos outros. Uma espécie de construção que é completada de acordo com aquilo que foi idealizado, comparado com aquilo que foi realizado.
A avaliação correta ou não da vida e até a sensação da sua condição feliz ou menos feliz, é dada através da satisfação das expectativas construídas ao longo dela. E é este momento biológico, ao redor dos 40 anos, o qual preme uma condição psicológica de questionamento íntimo e que se torna crítico na dependência da resposta favorável ou não.
E aí, então, as grandes perguntas passam a ser, em relação aos filhos quase adultos: estarão felizes e foram bem criados; correspondentes, educados, prontos a amadurecer na vida, enquadrados no bem e aptos à felicidade?
Quanto á família, e mais especificamente ao matrimônio, valeu a pena ter casado tão cedo ou de forma precipitada em busca de refúgio e afirmação, investindo tantos anos em uma relação cujo afeto, por mal plantado e/ou mal cultivado, pode ter morrido? Tendo que segurar as aparências e sacrificar-se pelos filhos, sendo constantemente tentado à prevaricação?
E a profissão? Esteve certo lá atrás ao ceder a um caminho economicamente promissor, mas que não lhe trouxe plena realização ao trabalhar?
E por fim, quanto valor foi dado aos bens materiais supervalorizados e erradamente dimensionados; quanto esforço foi feito e quantos outros prazeres mais simples foram sacrificados em seus nomes?
Todas essas perguntas surgem em forma de turbilhão, colocando o indivíduo em situação de angústia que o conduz a um desequilíbrio desestrutural de forma crítica. E tudo acaba gerando uma necessidade revisionista, cuja saída é uma mudança, uma retomada; ou a perpetuação dos erros com desconforto e infelicidade.
Nas mulheres, com valores quase que completamente diferentes, o mecanismo é semelhante.