A única dor permitida por este nobre sentimento deveria ser, sem dúvida, a única que com ele menos combina, qual seja a dor da ausência, da saudade e da espera e, dizem os românticos, assim fosse.
Findo o amor da adolescência e outros amores que se possa sentir com as mesmas dimensões, este se vê à mercê da evolução da vida dos que o carregam e de suas circunstâncias, quando muitas vezes amadurece ou outras vezes se deteriora, sofre e até se desfigura. E da beleza e embalo do amor inicial, pode passar a ser nada mais que um arremedo, às vezes, exatamente como as pessoas que o sentem.
As emoções e os sentimentos, entre eles o amor, transitam pela córtex cerebral, onde se localizam, entre outras coisas, junto ao saber e o conhecimento, as lembranças e características externas da personalidade, como o caráter e a conduta. A córtex, nesse particular, vivencía uma dinâmica que a modifica constantemente durante a vida, dentro de limites razoáveis de aceitação e de acordo com as informações e estímulos que lhe chegam. Dependentes que são do convívio e dentro da sanidade do órgão em que habita. A formação cerebral que abriga o amor mantém, também, estreitas relações com essa córtex cerebral, que é a região do cérebro de mais especialização e refino intelectual e através da qual mantém-se o contato com o mundo exterior. E por isso mesmo, a mente que dela emana modifica suas feições, sofre transformações, se neurotiza e até adoece, exercendo sobre o amor uma influencia também modificada. E, de acordo com isto, podendo inviabilizar um sentimento são pré-existente, permitindo um outro mais parecido com o seu momento insano. E às vezes ficar tão doente quanto ou, até mesmo, não padecer nada e se manter sadio. E com freqüência, dois amores doentes até que se dão muito bem, suprindo deficiências mútuas.
Por outro lado, poderá ocorrer que a modificação desta dinâmica cortical se dê para o surgimento de uma personalidade mais equilibrada, madura e com melhores características psicológicas que a que abrigava o amor anterior; e nela também se firmará um novo amor.
E é nestas últimas condições onde atua a necessidade de se praticar a arte de amar.
Mas qual seria a pior dor do amor? A resposta mais perto da verdade e sob um ponto de vista romântico, o que não é o atual enfoque, é provável que seja a dor que cada um já sentiu ou sente, ou seja, a percepção é individual. E este é que sabe da verdadeira resposta. A mais terrível, talvez, é a que está na dependência do padecimento do psiquismo de quem já a sofreu, principalmente aquela oriunda de questões não resolvidas ou mal resolvidas e que acontecem em incontáveis circunstâncias. Mas vou tratá-las sem ordem de importância, a qual ordem fica ao encargo do leitor.
Essas dores são geralmente proporcionais ao momento de fragilidade em que se encontre o malsinado envolvido por que, de um modo geral e via de regra, esta situação se traduz por uma depressão psíquica, às vezes até desencadeando a própria doença da depressão. Ou seja, uma depressão reativa, a qual será tão grande quanto o envolvimento emocional com o objeto de amor que foi perdido.
"Que será de mim? Que quereis que faça? Que longe estou de tudo que havia previsto! Esperava que me escrevesses de todos os lugares por onde passasses e que vossas cartas seriam muito longas; que manterias minha paixão com a esperança de voltarmos a nos ver, que uma total confiança em vossa fidelidade me daria uma forma de sossego e que eu permaneceria num estado bastante suportável, sem excessiva dor. Havia pensado, inclusive, em alguns leves propósitos de fazer todos os esforços que fosse capaz para curar-me, isso se pudesse saber com toda a certeza que não me haveis esquecido por completo. Vosso afastamento, alguns impulsos de devoção, o temor de arruinar por completo o que resta de minha saúde, com tantas vigílias e tantas inquietudes; pois apenas o indício de vosso regresso, a frieza de vossa paixão e de vosso último adeus, vossa partida fundamentada em miseráveis pretextos e outras mil razões demasiado boas e inúteis, pareciam prometer-me um auxílio bastante seguro, se chegasse a ser-me necessário. Não tendo que lutar senão comigo mesma, não podia nunca desconfiar de minhas debilidades, nem temer tudo o que hoje sofro. Ahi, pobre de mim que não posso compartilhar minhas penas convosco e que estou completamente sozinha, desgraçada. Essa idéia me mata e morro de temor de que nunca haveis sido excessivamente sensível a todos os nossos prazeres. Sim, agora conheço a hipocrisia de todos os vossos impulsos: me haveis traído quantas vezes me haveis dito que estavas encantado de estar comigo à sós. Somente devo a minha falta de oportunidade essas vossas necessidades e vossos arrebatamentos; vós haveis feito da frieza um propósito para acender-me, somente haveis considerado minha paixão como uma vitória conseguida e vosso coração jamais se comoveu profundamente por ela. E como é possível que, com tanto amor, não tenha podido fazer-vos completamente feliz? Somente sinto, por vosso amor, os infinitos prazeres que haveis perdido; é possível que tenhais querido gozá-los? Ahi, se os conhecesse, veríeis sem dúvida que não são muito mais tangíveis que o de haver-me enganado e haverias comprovado que se é muito mais feliz; que se sente algo muito mais comovedor quando se ama violentamente do que quando se é amado. Não sei o que sou, nem o que faço, nem o que desejo, estou desgarrada por mil impulsos contrários. Pode-se imaginar um estado tão deplorável?
Amo-o perdidamente e cuido muito para não atrever-me, por acaso que seja, a desejar que sejais sacudido pelos mesmos arrebatamentos; me mataria ou morreria de dor sem matar-me se estivesse certa que não tereis jamais sossego algum, que vossa vida não é senão inquietude e agitação, que chorais sem cessar e que tudo é odioso para vós. Se não dou conta de meus males, como poderia suportar a dor que me dariam os vossos, que para mim seriam mil vezes mais penosos?
Adeus, desejaria não tê-lo visto nunca. Ahi! quão vivamente sinto a falsidade desse sentimento e sei que prefiro ser desgraçada amando-o que não tê-lo visto nunca; assim pois, consinto que permaneças no meu aziago destino, pois que não quisestes faze-lo venturoso. Adeus, prometa-me que me afastarás de tua vida ao menos ternamente, porque morro de dor, e que ao menos a violência da minha paixão o faça aborrecer-se e se afastar de todo. Esse consolo me bastará e, tendo que abandoná-lo para sempre, não gostaria de entregá-lo a outra. Adeus, me parece que falo freqüentemente do estado insuportável em que me encontro, entretanto agradeço do fundo meu coração o desespero que me causais e detesto a tranqüilidade em que vivia antes de o conhecer".
Esta é uma carta quase na íntegra, escrita pela religiosa Sór Mariana Alcoforado, do Convento Maria Madre, em Lisboa, endereçada ao Capitão do Navio "El Vitória", um oficial francês famoso por seus amores que havia estado em Portugal entre 1663 e 1668, fazendo parte da expedição francesa que ajudou este país a se libertar de Espanha.
É comum, como vimos e como veremos, então, ao que agora podemos considerar um paciente ou um padecente da dor do amor, apresentar-se com tristeza, sensação de inadequação, astenia, perturbação da memória e déficit de concentração, perda de apetite, distúrbios de sono e ansiedade, agitação psicomotora, perda do interesse sexual, indecisão, hipocondria, irritabilidade e desesperança. Estes, como sabem, são os sintomas comuns da depressão, mais ou menos os mesmos que aparecem na dor do amor.
Pois, também aí ocorre uma perturbação bioquímica especial no cérebro da pessoa envolvida. Durante a última década, contudo, surgiram evidências que os transtornos depressivos podem estar relacionados a anormalidades em sistemas e estruturas cerebrais específicas. Dados apontam para um decréscimo de volume, hipometabolismo e reduzido fluxo de sangue nos lobos frontais, gânglios da base e estruturas mediais e temporais em pacientes com transtornos de humor do tipo depressivo, explicando-se isso pelas conexões funcionais e neuroanatômicas entre os gânglios da base, o lobo frontal e sistema límbico, através das redes fronto-subcorticais.
Desta maneira, a depressão pode ser utilizada com um modelo neurológico para entender, em parte, a fenomenologia e a neuroquímica do transtorno depressivo desencadeado ou envolvido numa circusntância de dor de amor.
Um estudo funcional por imagem, usando uma tomografia especial, demonstrou que pacientes com depressão primária associada a manifestações clínicas de depressão, apresentaram uma marcada redução de captação de contraste em determinadas regiões do sistema límbico, que sugere uma ruptura dos circuitos dos gânglios da base envolvendo a região inferior do lobo frontal que pode afetar a regulação do humor. Foi pesquisado também por tomografia simples, através de estudos sobre o alargamento dos ventrículos cerebrais e a proeminência dos sulcos em transtornos de humor e foi descoberto que pacientes com transtornos de humor possuem ventrículos mais dilatados e os sulcos cerebrais aumentados quando comparados com cérebros normais de controle. Em estudos semelhantes, os volumes dos lobos frontais e temporais de pacientes com transtornos do tipo depressão examinados por ressonância nuclear magnética, mostrou que essas estruturas parecem estar diminuídas de tamanho, comparados com cérebros controles da mesma idade.
Sob o ponto de vista clínico, foi sugerido que pacientes com início tardio da doença depressiva e resistente a farmacoterapia antidepressiva, estão mais sujeitos a apresentar amolecimento da substancia cerebral subcortical comprovados por exames especializados.
Assim reunidos, os dados de estudos de neuroimagem estrutural e funcional de transtornos depressivos primários e secundários sugerem fortemente que estas anormalidades, em um certo número de circuitos funcionais, estão envolvidas na fisiopatologia da depressão. E dois dos circuitos interligados, gânglios da base- tálamo- cortical podem ser de particular importancia: O Circuíto Límbico e o Circuito Pré-Frontal.
Evidências acumuladas implicam também os neurotransmissores, que são as substancias químicas que agem biologicamente na transmissão dos mais variados impulsos, como a noradrenalina, a serotonina e a dopamina, na fisiopatologia da depressão. Esta evidência fundamenta-se no que conhecemos sobre os mecanismos dos medicamentos antidepressivos, bem como estudos de metabólitos por degenaração destes e encontrados no plasma, na urina e líquor. Finalizando este raciocínio um tanto árido, mas muito próximo da verdade, sobre as bases bioquímicas e anatomo-fisiológicas do funcionamento da depressão, pode-se dizer que suspeita-se que essa enfermidade do psiquismo esteja associada com a ruptura funcional e estrutural dos relevantes circuitos descritos.
Mas voltando ao tema principal do nosso trabalho, tomemos também, como exemplo, e mais como agente causador do que propriamente como a dor em si, o desprezo ou o padecimento conseqüente ao que sobra de um amor que já existiu(ou mesmo daquele que nunca se consumou) e que feneceu em um dos lados. Ou que dele a outra metade nunca teve conhecimento, ficando aceso apenas em um só lado. Nesse caso, é penoso o sentir a derrota do ego, o ato de estar fazendo algo para conquistar ou reconquistar e não obter a resposta esperada e que acaba na indiferença, a qual gera depressão.
Pode ser também que essa relação ocorra entre uma personalidade sádica de um lado e uma outra, masoquista, em um exercício muito doente de relação humana e também muito freqüente, onde a prática se faz, necessariamente, com o prazer mórbido de um lado, chegando algumas vezes ao nível da tortura mental ou física, e com o sofrimento prazeroso de outro; onde o sofrimento do desprezo possa ser até conseqüência de uma busca inconsciente do desprezado.
Não fugindo quase nada dessa base de relacionamento interpessoal, existe uma forma de desprezo magnificada por uma circunstancia quase sempre penosa, que é o que se chama traição, ou a simples troca de um objeto de amor por outro, ou até o convívio com as duas situações. Que, às vezes, ocorre pela circunstância de um se aproveitando da imobilidade emocional do outro e resultando em grave ofensa à sensibilidade do desprezado. O qual, segundo seu equilíbrio emocional, poderá alcançar a superação ou mesmo se desestruturar. E ,de novo, a manifestação principal é a depressão. Ou mesmo, é possível que a própria parte traída tenha contribuído de alguma forma mais ou menos consciente para a ocorrência e nesses casos a dor pode ser menor.
O luto é outra dor de amor que cabe nesta descrição. Este, normalmente, se entende como o sentimento de que se é vítima quando desaparece alguém muito próximo e que é objeto do amor; o qual, fisiologicamente, se mostra na forma de uma grande tristeza, com sensação de situação insolúvel e de mundo por terra, com muitas outras conseqüências da circunstancia afetiva de que é vítima, como inapetência, choro, sensação de profunda infelicidade, tristeza e novamente a depressão, com um marcado desprezo da vítima para consigo mesmo e pela vida. Esta é uma sensação que é normal e que deve perdurar por alguns poucos meses após a perda. No entanto, o luto não se refere somente a pessoas que falecem, ocorrendo também quando ocorre a "morte" da relação ou o "falecimento" do objeto de afeto, com igual sensação e quase como se a morte fosse real.
Por fim o amor platônico, que consiste em uma relação irreal de amor entre uma pessoa e um outro ser idealizado, que pode ser uma pessoa real com retoques de fantasia, sem que esta nunca tenha tido conhecimento da sua metade admiradora, igual que muitas relações pré-adolescentes e adolescentes, que comumente nutrem intensas fantasias com seus ídolos e artistas preferidos. Sendo comum nessa idade, até pelas naturais limitações da consumação de seus amores ainda em treino, pode ser uma demonstração de limitação patológica quando ocorre em outras idades mais maduras e onde quem o carrega sofre de intensa dor de amor pelo desprezo involuntário por parte da sua idealização, além de muita frustração que progride de forma neurotizante.
E também se faz necessário entender que o amor é movediço e com grande poder de adaptação, principalmente de transformação, sendo produto, ora das emoções vibrantes e irresponsáveis da adolescência, ora da responsabilidade e sobriedade dos maduros ou das características da pessoa portadora de senilidade, sendo que estas duas últimas muitas vezes não desprezam o novo ou a renovação no amor, como forma de refazer a vibração e afastar a dor, sem o quê fenece o espírito.
terça-feira, 22 de abril de 2008
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