O maior saber necessário à vida, é o conhecimento sobre si próprio! Sócrates
Uma criança, ainda no ventre da mãe, já possui ,nos últimos meses de gestação, a sua fisiologia própria quase completa; fato que se comprova também pela observação de nascidos prematuros que às expensas da ciência neonatológica se desenvolvem muito bem, inclusive, ocasionalmente, sem ajuda médica e apenas com cuidados maternos. No ventre da mãe e em situação sob certo aspecto "parasitária", o feto, confortavelmente abriga-se do frio e de outros desconfortos, dos quais tem percepção mas não tem consciência plena, ali permanecendo sem exercer o mínimo trabalho para sobreviver ou se alimentar. Com suas aspirações primitivas a respeito de uma vida de relação em perfeita harmonia com o seu meio líquido e, no seu entender, sem riscos. Ou seja, aquela é uma condição celestial, com tudo de bom, na hora certa, de graça e sem esforço. Conhece-se algo melhor?
A primeira sensação que o bebê naturalmente tem ao nascer é a sensação de abandono, a quebra da harmonia ambiental representada por sua fonte geradora, a mãe; uma sensação de perda do vínculo com a fonte que até então representava segurança física e emocional primária. Associado ao conseqüente padecimento antevisto, dali em diante.
Da mesma forma, a sua primeira manifestação fisiológica de desacordo com essa situação, é o choro, na forma concomitante de uma primeira respiração. Antes, no ventre materno, nem isso necessitava fazer e agora lhe caberá cumprir por toda a vida, até um dia, em uma última, definitiva e derradeira expiração. Um choro do qual o homem, mesmo adulto, lançará mão durante toda a sua vida, desde a infância, para manifestar o seu pesar por algo que lhe faça mal, como se suas dores, quaisquer delas, fossem uma gradação do desconforto de nascer.
Bem como, o homem estará fadado a buscar a reversão desse padecimento inicial, do desencontro inicial com a própria mãe na hora do nascimento, através da busca de uma aproximação com um outro ser de peso biológico e afetivo semelhante que a represente ou que represente a sua função de doadora de afeto, alimentação e segurança.
E que acabe com a sua solidão, sua dor e frio adquiridos ao perder a dependência do ninho original e seu significado.
E nesta empreitada viverá o homem por toda a sua vida, buscando encontrar em meio a muitos desencontros, uma circunstancia afetivamente confortável; que poderá ser uma pessoa ou projetada em uma profissão que a compense ou em um animal de estimação que lhe dê o mesmo tipo de vinculo afetivo, ou mesmo em outras formas mais bizarras; evidentemente, em uma transferencia que agrade ao seu Ego( ainda Freud) e que lhe diminua ou anule a desconfortável e perigosa sensação que adquiriu no desenlace inicial, quando nasceu.
E a essa busca, ao seu possível reencontro e suas envolventes e agradáveis emoções, nós chamaremos de amor.
Esta busca será então uma prática constante do indivíduo pela sua vida a fora, sendo que a sua bem sucedida realização será uma das formas da felicidade, ela que é uma procura obrigatória para um Ego sadio, em toda a existência. Assim como, o seu fracasso nesta procura será motivo de graduais frustrações, ansiedades e neuroses. Além do que, o indivíduo razoavelmente são, no seu trajeto de busca poderá praticar os maiores desvarios na tentativa de acertar sempre, em um constante aprendizado; algo como um tropeça, cai e levanta de quem aprende a caminhar. Será uma busca incessante na qual se tentará sempre o resgate simbólico do conforto físico e emocional perdido em sua primeira experiência de relacionamento e que ficou incrustada em sua matriz afetiva na forma de um objeto de afeto perdido. Cuja memória inaugurou o núcleo do hipocampo, responsável pela memorização, estrutura pertencente ao Sistema Límbico do cérebro e a ser recuperada em um confortável reencontro.
"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida", disse certa vez Vinícius de Moraes, que com um conhecimento(e como!) tão somente de vida, assim se resumiu de maneira poética, brilhante e extremamente precisa o que essa circunstancia realmente é. E o homem será, por isso, sempre escravo de alguma forma de busca da felicidade, sendo a mais arraigada e com maiores riscos, a da busca do amor.
Os divãs dos analistas já desvendaram que a sanidade dessa busca, do encontro e da vivência dos "amores" que o homem terá pela frente no transcorrer da sua vida emocionalmente viva e útil, dependerá da estabilidade em que ocorrer as suas primeiras experiências afetivas, preferencialmente com a mãe depois de nascido, que lhe dará calor, leite do peito e afeto. Permitindo que o bebê, primeiro tenha a sensação de saciedade, conforto e segurança e à partir daí possa amadurecer o amor por outras figuras adventícias à essa relação. Como a figura do pai, dos irmãos e de outros familiares e com um provável relacionamento social também saudável. Evidentemente, que tudo será balizado pela carga genética de cada um e que ajudará a moldar as características da personalidade, como o temperamento e o humor dos indivíduos.
E será a prática desse amor, mais maduro e necessariamente interpessoal, esse que todos nós almejamos e que nem todos nós sabemos buscar ou conservar, uma arte?
Bem, para a maioria dos estudiosos e entendidos, efetivamente amar é uma arte. E como em qualquer outra arte, o amor exige conhecimento do objeto amado e de todas as circunstancias que o rodeiam, inclusive um profundo e, tanto quanto se possa ter, conhecimento de si próprio isento de distorções. Uma arte que exige, também, cuidado e esforço, algo assim como um cuidado de quem executa pintura em porcelana, a qual exige atenção ao escolher a peça a ser trabalhada, além de acurada escolha do material a ser empregado. Ou, talvez, muito mais do que isso, tão somente por se tratar de amor. Como tudo o que sai do nosso ato de criar, enquanto ele estiver nessa condição de dependente de nossa criação, constitui-se em uma extensão nossa, é um ser vivo e animado, tanto na brotação como no crescimento.
Uma semente qualquer, frente a nós, nada é senão uma inanimada semente. No entanto, se prepararmos uma boa terra, tratada e adubada de acordo para lançá-la, se tivermos cuidados de irrigação e a protegermos do frio e do calor excessivos, nós veremos brotar a vida e crescer o produto da nossa arte, a arte de semear e cuidar. E teremos, conseqüente a este ato, a flor ou o fruto.Pois no amor é parecido, experimente!
Assim, é preciso também uma especial dedicação ao fruto desse seu amor pessoal para se colher o resultado que o coração espera nesta arte. É preciso, outrossim, o convencimento de que muito longe sempre deverá estar a idéia de que o amor seja uma sensação agradável e sempre maravilhosamente envolvente, ocorrida no sujeito por acaso, algo em que se "cai" quando se tem sorte. Baseado no raciocínio inicial, todos sentem fome de amor, prova disso é demonstrada nos que assistem infindáveis filmes de amor com finais felizes e até infelizes e emocionam-se com velhas e melancólicas canções. Mas, geralmente, não têm por hábito pensar que exista algo que se possa fazer em favor do seu amor e do seu envolvimento, achando que essa ocorrência é uma coisa que somente acontece com os que estão à distancia.
E aqui, então, cabem algumas considerações sobre enganos comuns que ocorrem durante um desempenho errôneo nesta prática e que levam a desencantos também comuns. Primeiro, a maioria das pessoas vê o problema do amor em todas as suas modalidades, especialmente como um problema de ser amado. Ou seja, uma postura egoísta e que visa mais a própria satisfação como o fator inicial da relação. Em lugar do amar, este um ato que requer talvez o maior atributo do amor, que é o desprendimento. E na busca desse alvo acabam por seguir vários caminhos para, digamos, melhorar a sua performance pessoal; e um deles é ter sucesso, ostentar o quanto possa o que consome, além de ter poder e riqueza. O outro caminho mais utilizado, principalmente pelas mulheres, é tornarem-se sedutoramente mais atraentes antes de tudo, além de outros atrativos, como maneiras agradáveis, conversação interessante, prestatividade e até uma aparência inofensiva; tudo, na realidade, uma mistura de ser popular, bem sucedido e ter atrativos sexuais.
Em segundo lugar, é pensamento comum e corrente que amar é uma faculdade muito simples a qualquer um de nós e que o difícil é encontrar o objeto certo para amar e por ele ser amado. Desse modo, constata-se que, como um exemplo da época vitoriana, o amor não era, principalmente, uma experiência pessoal livre e expontânea nas pessoas e que a seguir pudesse levar ao casamento. Ao contrário, o casamento consumava-se na base de considerações e arranjos sociais entre as famílias das partes e julgava-se que o amor se desenvolvia depois de consumada união. De algumas gerações para cá e no século XX mais marcadamente, é que surgiu o amor romântico. E esse novo conceito de liberdade no amor é que deve ter acentuado enormemente a importância do "objeto" de escolha no amor, em detrimento da "função" deste objeto.
E, por último, ainda encontramos um grande erro que consiste na confusão entre a experiência inicial de "cair" enamorado, o que se conhece como paixão, e o estado permanente de "estar" amando ou de permanecer em amor.
Se duas pessoas estranhas uma à outra, como todos nós somos antes de nos aproximarmos, subitamente deixam ruir ou conseguem romper a parede que as separa e depois se sentem próximas, provavelmente como uma só, esse momento de unidade é das mais jubilosas e excitantes experiências ao longo da vida, buscada com sofreguidão de forma consciente ou não, desde aquele primeiro choro de abandono e solidão. Compensando, ainda que de forma necessária e modificada, a amarga experiência que representou aquela separação ao se sair do confortável ventre da mãe. O encontro e o bem sucedido cultivo do objeto do seu afeto, com admiração, é tudo que há de mais admirável e miraculoso para quem vinha fechado em sí, isolado, sem amor.
No entanto, por ser uma coisa tão maravilhosamente apresentada a nós, além da força que exerce sobre a necessidade interna e pessoal em cada um, dificilmente haverá qualquer atividade ou qualquer empreendimento que comece com tantas expectativas e esperanças. E que, contudo, motivado pelas mais variadas intercorrências, fracasse com tanta regularidade e freqüência, quanto o amor.
Se isso ocorresse com qualquer outra atividade humana, todos os envolvidos estariam ansiosos por saber as razões de tal fracasso, fosse na sua empresa, na sua arte de plantar flores ou morangos ou na sua atividade científica. E estariam sequiosos por aprender como poderiam fazer melhor para serem bem sucedidos. Ou, então, desistiriam da atividade. Como em relação ao amor tal alternativa é impossível, mesmo no amor sublimado ou projetado, dada a sua constante necessidade em nossas vidas, obviamente cabe examinar as razões da freqüência da falência na arte de amar e passar a estudar melhor a sua significação e o que fazer para evitar a repetição dos fracassos.
E quais são os caminhos necessários para aprender qualquer arte?O processo de aprendizado de uma arte, genericamente, se divide em duas partes e num importante apêndice.
É preciso, primeiramente, que se tenha a noção da teoria e um profundo e prazeroso descobrimento que resulte em conhecimento do que se ama. Em segundo lugar, que se tenha o domínio da prática. Se não, vejamos: se para aprender a arte da medicina devo primeiro entender os fatos e as doenças relacionadas ao corpo humano, de modo algum não serei um médico competente senão que ao fim desse conhecimento e só me tornarei mestre nessa arte quando tiver o exercício de uma longa prática. E que por fim esta prática se mescle com a teoria e naça em mim, como apêndice, a intuição, essência do domínio de qualquer arte.
Finalmente, além de aprender a teoria, obter a prática e ter intuição, para que um indivíduo se torne grão-mestre em qualquer arte, esta arte deverá ser uma questão de extrema preocupação e zelo. Nada deverá existir no mundo, em um dado momento, mais importante do que a arte do seu amor. E então os fracassos sumirão, embora você possa se quiser, ter várias ou até muitas experiências de amor em sua vida. E viva esta arte!
Existe, porém, um amor errado e até platônico, que nasce do inompreendido e do incontrolavel, cujo embasamento vem do inconsciente, das vivências e memórias remotas que muitas vezes nos comandam. Ou até de vivências ancestrais ou arquetípicas e que nos influenciam de forma quase que expontânea; e que não dependem de cultivo ou de arte. É um amor que, por ser de geração tão independente e tão desarrazoado, atinge os distraídos e vulneráveis. Mas que, ainda, por não se saber como vem, não sabe também como se vai ou quando se vai. Ou mesmo se permanece! E, se for conveniente, pode se solidificar pela arte, podendo levar, no entanto e muitas vezes, ao sofrimento de angústia e depressão se se tornar, enfim, racionalmente indesejável. É o que acontece, comumente, com a paixão-doença.
Mas, por fim, se o amor é uma arte, pressupõe em seu íntimo a existência da criação, da originalidade e da beleza, que no conjunto formarão a obra-prima de quem o cultiva e pratica. Não devendo nunca ser tratado com descuido, pois nesse caso será como um quadro pintado com desleixo pelo artista e que assim não terá admiradores. Ou um ato cirúrgico praticado por mãos relapsas, sem acompanhamento pós-operatório e sem a devida assistência afetiva e o conforto na aflição do enfermo. Ou como uma florista que relaxa em sua arte e que vê sua planta fenecer, murchar e morrer.
terça-feira, 22 de abril de 2008
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